Ser humano nesse mundo de animais

Minha sede de mudança é muito maior do que os meus pés são capazes de suportar. E por isso eles hoje estão tão calejados. Nasci para bater de frente com a vida, sentir o mundo na pele, tomar a dor dos oprimidos num só gole e percorrer os dias de uma forma fugaz e urgente. Por isso acho que se eu acreditasse em destino diria que o meu é lutar por liberdade. Sempre fui de nadar contra a maré. Prometi para mim mesma não me deixar levar pela correnteza. Até hoje eu pago caro por essa promessa, porque abri mão do mais fácil, do mais cômodo. Deixei de ser o que queriam que eu fosse para me tornar outra coisa. Alguma outra coisa que eu ainda não sei bem o que é, mas que aprende a cada dia a aceitar os seus defeitos, assumir as suas culpas, não se entregar a passividade, questionar o inquestionável, nunca perder a sensibilidade e aprender a beleza e a dor que é ser humano nesse mundo de animais.

Cecília Richter

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Minha utopia, minha poesia

Será que é pedir demais querer que todas as pessoas vejam tudo?
Minha utopia, minha poesia
Noutras vezes só desejaria que alguns vissem um pouco mais.
Mas acho que todos aqueles que querem lutar por liberdade
Deveriam antes libertar a si próprio
Se livrar dessa coisa mesquinha, dessa mania ridícula
De não querer deixar os outros serem
O que eles quiserem
Tem gente por aí que só vê um pedaço do que julga ser universal.
Pensam que pensam que pensam.
A verdade é que somos todos jovens tolos
E ainda levaremos muito tapa na cara
Por isso devemos aprender a mendigar com dignidade
Quebrar toda e qualquer passividade
De discursos majestosos o mundo já está supersaturado
De palavras de luta o dicionário está cheio
Alguém para apontar o dedo, criticar, sinalizar as falhas
Nunca falta
Então façamos o que tiver de ser feito
Seja lá o que isso for
Porque nenhum de nós aqui sabe do que não foi
Breve é o tempo que ainda não veio
Mas viver é isso: aceitar a complexidade das coisas
Mudar os rumos, remover os muros.
Por isso hoje eu só quero saber
Se essa tal juventude está mesmo disposta a não deixar
Nada mais acerca de nós nos cercar

Cecília Richter

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A culpa é da bebida produzida a partir dos grãos torrados do fruto do cafeeiro.

Ah! De que sabor me trás tanta melancolia? De que grão bebo, de uma só vez, todas minhas lástimas?
- Com muito açucar, por favor!
Já me é suficiente o amargo da vida.
- Traga-me um cinzeiro também.
Pois um estrago nunca vêm sozinho.
O aroma que entra nos lábios, de todos os que colaboram com o quadro deplorável da humanidade, soa como rotina.
- E as crianças da África?
O café parece um anestésico para as dores do mundo. Mas claro, anestesia as dores de quem vê a miséria, não de quem a sente.
Pobres escravos assalariados que ainda contemplam o dançar das horas com euforia. Argamassa na mão e olhos no relógio.
Oh! Bendito é aquele que nos promove quinze minutos de paz. O único prazer que o trabalhador ainda têm é a hora do café. Mas rápido porque os investidores querem resultados. O chefe ameaça: “se ficares aí tomando tanto café os japoneses vão desistir de vir pra cá”
- E da gastrite ninguém fala?
Acidente de trabalho, morte do cônjuge, depressão, aumento de gastos, câncer na família, filho preso, casa roubada, insônia, falta de apetite sexual…
- Pare de tomar café e vá trabalhar que tudo se resolve!
No delirante andar do ponteiros não há tempo para derramar lágrimas e tormentos.
Mas será mesmo tudo culpa do café? Se assim for, os trabalhadores que tanto suaram para conceber-nos estes grãos sabem do mal que nos fizeram?
Há quem tanto lute para acabar com narcotráfico mas ninguém vê que a pior das drogas está alí, nas prateleiras de qualquer supermercado, para quem quiser se embriagar dessa substância legal que o mundo aceita.
Maldito liquido traidor! Prometeu-me tranqüilidade e pequenos momentos de prazer. Mas não avisou que em troca levaria minha alma. Devemos todos fazer como na Conferência de Taubaté! Queimar milhões de sacas de café. Mas desta vez a crise é diferente: não é o dinheiro que falta nos bolsos dos homens: é a falta de paz no coração dos mesmos.
- Então o café é o culpado da fome, miséria, desemprego, violência e a guerra?
Bom… na verdade a culpa é do homem que produz o café, do homem que manda no homem que produz o café, da família do homem que produz o café, dos descendentes do homem que produz o café e principalmente do homem que consome o café.
Mas é melhor dizer que a culpa é da bebida produzida a partir dos grãos torrados do fruto do cafeeiro. Porque, até onde eu saiba, grãos não matam ninguém.

Cecília Richter

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AS RELAÇÕES

Junto com tudo que poderia ser os outros, estou eu
Incerta, inadequada e inibida.
Junto com tudo que sou eu esta um pouco de cada um que passou por mim
Sonhos, sorrisos e solidão.

Cecília Richter

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Vazias Noites Vadias

Nas noites vazias, nos botecos sujos e nas bebidas baratas
Ela procura achar seus restos.
Suas noites há tempos não são mais criança
Pois elas perderam a inocência e a magia de serem o que são.
Ela vai nos mesmos lugares, encontra as mesmas pessoas
Mas há sempre um momento da noite
Que ela sente, por um milésimo de segundo interminável,
Que não deveria estar ali
Tudo lhe parece tão vazio e cheio de hipocrisia
Esse é o momento mais perigoso dessas noites profanas.
Nessa ultima noite
Quando percebeu que algo sutilmente dilacerante invadira sua carne
Estava no banheiro e por engano
Seu olhar cruzou-se com o seu outro eu que se refletia no espelho
Assim, acidentalmente, percebeu
Que jogara sua vida descarga abaixo
Ou talvez tenha a deixado em algum beco escuro
Dos quais passou cambaleando e derrubando vodka
Então saiu desbravadamente empurrando a porta
Jogou a garrafa que segurava no chão, arrumou o vestido
E pediu uma bebida mais forte
Ela, inutilmente, tentava ignorar o sofrer do mundo
Numa tentativa de calar aquela dor gritante
Sufocar até não se ter mais notícias daquele velho amargo vazio
E se perdeu mais uma vez, indignamente, na vida boêmia.
No outro dia poucos vestigios daquela embriagada euforia se farão presentes
Dela só restam os copos e os corpos vazios
A dor sempre volta para mostrar
Que não se diluiu no whisky
Então após curada a ressaca
(do corpo, não da alma)
Ela se levanta, se veste, se penteia e se maquia
Se renova de falsas esperanças
E sai para outra noite vazia
A procura de outro veneno para anestesiar a vida.

Cecília Richter

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Nossos sonhos estão sendo marginalizados.

Quando o coletivo sobrepõe-se ao individual
É quando a gente sente que faz parte de um todo bem maior
Muito maior que o limitado espaço físico que nossos corpos ocupam.
O que nos mobiliza é essa vontade borbulhante de poder cantar.
Cantar os nossos sonhos, abrir os nossos braços, poder sorrir sem medo.
Ser ouvido, respeitado, correr o mundo, quebrar os muros.
Muros que também não são só fisicos,
São aqueles muros construídos dentro de cada um de nós durante tanto tempo.
Desde que viemos, cada um de nós, a esse mundo bandido
Tantos nos dizem sempre o que fazer, como se adequar
E hoje os bandidos somos nós.
Essa sociedade, que tão cheia de falsos moralismos
Nos engana dizendo que somos livres.
E dizem que devemos aprender a aceitar calados.
As instituições de ensino continuam a nos domar feito éguas.
Mas algo dentro de nós continua vivo, algo que é inadestrável.
Então lutamos juntos
Como um compartilhado sonho infantil de onipotência:
Tudo podemos.
Os perigos que se corre? Pouco importa.
Os corpos vibram querendo tirar aquela venda
Que diáriamente tentam nos botar nos olhos.
Aquele “não” que nos impede de ser quem quisermos
Aquela coisa presa na garganta, que sufoca, que quer sair.
Tudo isso faz com que as esperanças se conectem de uma forma quase mística
E sai assim, feito vômito, em revolucionários discursos de libertação.
O que sou eu e o que não sou eu nisso tudo?
A linha é tênue.
Mas então ficamos unidos em um só:
Essa massa que forma junto a prova concreta que
O futuro está na mão de cada um de nós.
E temos sim a força. A força e a coragem que só quem é jovem tem.
Somos vanguardistas, somos além, pensamos além.
Por isso somos, hoje, olhados como se fossemos marginais.
E que isso nunca morra dentro de nós.
Pois é justamente isso que faz desacomodar
Tudo aquilo que nos impede de sermos maiores.
O mundo parece esperar muito de nós.
Libertemos então, as correntes que só nossos olhos visionários parecem ver.

Cecília Richter

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Como se trata uma mulher fálica

Trate uma mulher fálica com empenho
A ame de uma forma poética
Beije-a e se mostre envolvente
A conquiste e a deixe sem saída
Acorde ela de um jeito doce
Mostre que você entende sobre existencialismo e fenomenologia.
Coma bem ela.
Abraçe-a e faça com que ela nunca mais se sinta só
Fale sobre o universo, sobre o cosmos, os buracos negros
A faça sentir viva!
Lhe deixe só na vontade alguma vez.
A descreva de forma lírica
Sinta, beba, cheire, engula ela
Deixe-a em dúvida
Elogie ela sempre
Diga sua opinião sobre o conflito arabe-israelense
Instigue, surpreenda
Faça ela saber de verdade o que é o amor livre
Mostre que você é capaz de fazer ela não querer mais ninguém
Leve-a para conhecer toda a América Latina de moto
A apoie sempre e a ajude a crescer
Mostre aceitação incondicional e confie na sua tendência atualizante
Faça ela ter esperança, acreditar na mudança
A faça gozar, arrancar os cabelos, mudar todos os planos
Peça para ela ficar, faça ela querer ficar.
Diga a ela coisas lindas, a deixe sem ar
Prove que Freud estava errado
Trate-a como uma rainha
A deixe esperando algumas vezes
Xingue-a e sinta raiva dela
Mas nunca, nunca mesmo
A trate como uma mulher submissa
Porque se você fizer isso
Ela provavelmente deixará toda compostura de lado
E quebrará a sua cara!
Então nem seu pau enorme terá mais utilidade para ela

Cecília Richter

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Ônibus lotado.

Ônibus lotado, linha universitária, horário de pico.

Vida de estudante brasileiro que tenta ser um pouco mais

Mesmo sem saber aonde isso tudo irá levar.

Ela, ansiosa.

Na cabeça preocuções mil e substâncias psicoativas.

Ao lado dela sentou um rapaz:

Moreno, alto, ombros largos e

A cara de quem também já não aguentava mais a prisão da rotina que ele mesmo escolheu.

Ela tentava transpor no papel todas as divagações insanas que lhe ocorrera naquele momento.

Impossível.

Ele, com um olhar disfarçadamente sexualizado olhava suas pernas.

Mas seu olhar acabou atraído pela curiosidade de saber o que ela tanto escrevia.

Naquele momento, nele, a pulsão epistemofilica fez-se maior.

Ele inclinava a cabeça pra tentar ler algo.

De uma forma bem sutil.

Quando ela o olhava ele rapidamente fingia que olhava a paisagem na janela.

Ela percebia tudo e sentia-se levemente incomodada.

Não queria que um estranho tivesse acesso a conteúdos tão profundos seus.

Por mais físicamente atraente que fosse.

Há coisas que ela só permitia aos papéis saberem sobre ela.

Mas ele continua tentando pescar nem que fosse algumas palavras.

Nem que fosse só para saber como era a letra dela.

Mas a letra dela mudava muito.

As vezes escrevia com letrinhas miudinhas, bonitinhas, imendadinhas, de menininha prendada.

Outras, escrevia garranchos bizarros, grandes, tortos, de traçado grosso, forte, fora da linha.

Ele aproximava cada vez mais a cabeça

E ela cada vez mais se inclinava para o lado contrário dele.

Quando ela tirava os olhos do caderninho e o olhava, ele desviava o olhar.

Fingia, só faltava assoviar.

Então, subtamente, ela fechou o moleskine e fixou seus olhos nele.

Ele constrangeu-se e mexeu o corpo de forma inquieta

Ela continuou olhando fixo.

Pensou ela que, de que adianta tanta virilidade num corpo se não se tem coragem suficiente para encarar um olhar de uma mulher decidida?

Como se tivesse ouvido o que ela pensava, ele parou e olhou-a nos olhos.

Com um tom agressivamente impositivo, como se o colocasse contra a parede

Ela perguntou:

“Queres mesmo saber o que está escrito aqui?”

Antes que ele ousasse responder, ela abriu o caderno

Folhou aquelas páginas cheias de muita vida, muita vida morta

Localizou o que escrevera.

Se ajeitou no banco, arrumou o cabelo e os óculos, ergueu a postura

Então, com um tom de voz agressivo, teatral, lírico

E com uma espécie de angustia que parecia sinalizar os conflitos dentro dela

Começou a ler:

“VOCÊ JÁ PAROU PRA PENSAR NAS CONSEQUÊNCIAS MIL QUE PODEM TER UM SIMPLES ATO SEU? VOCÊ SABIA QUE TUDO QUE VOCÊ FIZER CAUSA REAÇÕES EM TUDO A SUA VOLTA? MAS PROVAVELMENTE A MAIORIA DELAS VOCÊ NUNCA IRÁ TER CONHECIMENTO. PENSAR SOBRE ISSO TAMBÉM POUCO ADIANTARÁ, POIS A VIDA NADA MAIS É QUE UMA INSANA ROLETA RUSSA, FEITA DE IMPOSSIBILIDADES MIL. DIFICIL, OU DIRIA MELHOR, INALCANÇAVELMENTE PREVISÍVEIS. VIVER É CORRER RISCO, MEU BEM. E O QUE VOCÊ ESCOLHE NÃO FAZER TAMBÉM ACARRETARÁ EM MUITAS OUTRAS ESCOLHAS QUE VOCÊ VAI TER QUE FAZER. UM “NÃO” PREDISPÕE VÁRIOS “SIM”. E CADA VEZ QUE UMA PALAVRA É ESCOLHIDA PRA SER DITA VÁRIAS OUTRAS PALAVRAS DEIXAM DE SER USADAS. TALVEZ MELHORES, TALVEZ NÃO. NUNCA SE SABERÁ. AS VEZES É MAIS FÁCIL SAIR POR AÍ E SÓ IR VIVENDO. OU ACREDITAR QUE UMA FORÇA SUPERIOR ENCAMINHARÁ TUDO NO MUNDO. FOI-SE O DIA EM QUE ISSO ERA DIGERIDO. NÃO É MAIS PORQUE UM DIA SURGIU A DÚVIDA. E PORQUE NEM TODOS ACEITAM AS VERDADES QUE LHE SÃO IMPOSTAS. MAS SABER É PERIGOSO. SABER DESACOMODA. E QUANTO MAIS SE SABE MAIS PERDIDO SE FICA. OLHA EU… EU QUE ME PEGO PENSANDO NA FINITUDE DAS COISAS, NO INTRINSECO E NO UNIVERSAL. E TUDO PARECE, DIANTE DE MIM, PARALELAMENTE SE ENCAMINHAR PARA ALGO ESPLENDOROSAMENTE MISTERIOSO. ESSE MISTÉRIO É LINDO! E EU FAÇO PARTE DELE. TENTAR DESVENDÁ-LO É TÃO UTÓPICO QUANTO APAIXONANTE. E CADA VEZ QUE EU PENSO QUANTO AINDA TENHO PARA DESCOBRIR NO UNIVERSO, VEJO COMO É IMENSA MINHA PEQUENEZ.”

Fechou o moleskine.

Todos em volta daquele ônibus lotado observavam a cena espantados.

Ela olhou para os olhos estagnados daquele familiar desconhecido

E disse num tom irônico:

“Satisfeito?”

Ela então levantou-se, com a cabeça erguida, e rapidamente desceu do ônibus.

Cecília Richter

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Esse meu romantismo babaca

Tenho que confessar que tenho sérios problemas com o materialismo e com a racionalidade. O plano das idéias sempre me foi mais atraente. Sempre gostei mais do subjetivo, do singular, do irracional, da emoção, do mistério. E é assim que eu vivo. Fico até imaginado o que aconteceria se eu não imaginasse tanto. E se isso não fosse assim.. e se eu fosse de outro jeito.. e se os seres humanos fossem mais humanos… e se a justiça fosse justa… e se o mundo fosse outro. E me vem na cabeça a minha psicóloga falando: “Cecília, o ‘se’ não existe.” Castradora de sonhos. No fundo no fundo eu acho que eu parei no tempo na história. Fiquei lá na época do socialismo utópico. Talvez seja pelo simples fato que a sociedade socialista que eu imagino é tão tão melhor que a realidade crua e sofrida que eu vejo nas ruas, que eu prefiro ficar no mundo dos sonhos do que nesse mundo real que é tão duro, tão frio e tão sem poesia.

Cecília Richter

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8 de Março

Essas que se embrenharam mata adentro e se negaram aos colonizadores
e as que colaboraram e casaram com eles,
Essas que embarcaram ainda crianças
e as que ultrapassaram os limites da chegada,
Essas que levaram chibatadas e marcas de ferro quente
e as que se revoltaram e fundaram quilombos,
Essas que vieram embaladas por sonhos
e as que atravessaram nos porões da escuridão,
Essas que geraram filhas e filhos
e as que nunca pariram,
Essas que acenderam todas as espécies de velas
e as que arderam nas fogueiras,
Essas que lutaram com armas
e as que combateram sem elas,
Essas que cantaram, dançaram, pintaram e bordaram
e as que só criaram empecilhos,
Essas que escreveram e traduziram seus sentimentos
e as que nem mesmo assinavam o nome,
Essas que clamaram por conhecimento e escolas
e as que derrubaram os muros com os dedos,
Essas que trabalharam nos escritórios e fábricas
e as que empunharam as enxadas no campo,
Essas que ocuparam ruas e praças
e as que ficaram em casa,
Essas que quiseram se tornar cidadãs
e as que imaginaram todas votando,
Essas que assumiram os lugares até então proibidos
e as que elegeram as outras,
Essas que cuidaram e trataram dos diferentes males
e as que adoeceram por eles,
Essas que alimentaram e aplacaram os vários tipos de fome
e aquelas que arrumaram a mesa,
Essas que atenderam, datilografaram e secretariaram
e aquelas que lavaram e passaram sem conseguir atenção,
Essas que se doutoraram e ensinaram
e as que aprenderam com a vida,
Essas que nadaram, correram e pularam
e as que sustentaram a partida,
Essas que não se comportaram bem e amaram de todas as maneiras
e as que fizeram sem pedir licença,
Essas que desafinaram o coro do destino
e as que com isso abriram as alas e as asas,
Essas que ficaram de fora
e aquelas que ainda virão,
Essas e tantas outras que existiram dentro da gente
e as que viveram por nós

Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil

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As palavras são banais

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Poema Egocêntrico

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Lila Ripoll

Hoje pensar me dói como ferida.
O próprio poema não é poema.
Tem qualquer coisa de trágico.
De sangue junto ao muro.
De pétalas descidas.
De véu cobrindo o retrato
De um morto.

Hoje pensar me dói como ferida.
Mas é uma imposição-pensar.

Não quero estado de graça,
Nem aceito determinismo.
Só a morte é irreversível.

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