Nossa Arte Transgressora Dadaísta

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Quem somos? Somos aquelxs que são contra os que acham que tem o direito de nos definir. O que queremos? Instaurar o caos. Romper com toda e qualquer linearidade. Viemos mostrar nosso cu para os grandes embaixadores do moralismo, para os bigodudos engravatados, burocratas sexualmente frustrados, esses homens sérios que não peidam porque tem medo de perder o controle. Nós também sabemos falar bonito. Mas não queremos. Preferimos debochar da sua ciência, cuspir na sua verdade, defecar na sua razão. Positivismo? Hihihi. Não somos ingenuxs. Somos exclusivxs excluidxs. Sobre a arte? Somos contra a arte, contra o contrário da arte e da anti-arte. Os artistas não fazem arte. Os artistas materializam seus egocentrismos em salas bem iluminadas de acesso restrito. Quem hoje em dia faz uma arte que de fato valha a pena são xs marginais, xs mendigxs, xs loucxs, xs vândalxs, xs criminosxs, xs desadaptadxs. Molotov de irracionalidade transgressora pra vocês. Explodiremos seus museus. O que sobrar dos escombros será nossa obra de arte.

Cecília Richter

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Esquizoanálise da Subversão

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Esse tal de Estado Democrático de Direitos é o mesmo que adestra desastres. Essa pátria que me pariu vomita ordem e solidão. Só lhe dão não. Os panópticos excitam carrascos e o PIB é puro punheterismo falocêntrico. Sobreviver sem tornar-se ratinho de Skinner e jorrar coletividades deleuzianas: eis o desafio. Transmutar as ausências e os excessos. O corpoema existencial não capturado pelo marxismo que Dali usaria como supositório se estivesse vivo a tempo de criar Zonas Autônomas Temporárias. Esse teu pacifismo cloacal nega a intensidade dos presídios, dos cosmos, dos transeuntes, das misérias. Vá capturar a transgressão criadora da sua vó! Da UPP, da CIA, da Interpol! Da merda da ciência positivista que quer medicalizar nossos desejos pintados de coragem. Humor negro é o meu dedo no teu cu! Nós, desviantes polimorfxs, queremos desterritorializar o privado, sabotar os hospícios, menstruar nos patrões, catalizar os dadaismos, insurgir o descontrole, okupar os conventos, defecar nas igrejas, libertar o kaos, desmarginalizar as rupturas, desobedecer a legalidade e cuspir no indigesto. Na casa, no trabalho, na rua, na cama: horizontalidade fenomenológica radical. Reinventar a trama processual autogestionária de um despir-se coletivo e catártico. Afetar-se pelas intensidades sensíveis da porra líquida do Bauman. Não há nada mais subversivo que a loucura. O noopoder da vagina pós-estruturalista quer simplesmente ser. Falsas dicotomias sincronizadamente caóticas segregam autonomias. Resingularizar um pai de santo em época de Copa do Mundo. Questionar qualquer teoria cientifica que não for amplamente discutida em assembléia popular. Os muros foram feitos para serem pixados, sequestrados, musicados e derrubados. Nem tente despolitizar o meu gozo! Pau no Freire, não! Quanto mais pessoas souberem melhor: autobiografias apelativamente manchadas de tinta são ocidentalizadas pela subjetivação capitalística que violenta cotidianamente a dignidade humana. Submundo! Rizoma globalizado! Surto psicótico sem sabor! Estado de exceção maniqueísta! Neoliberalismo necrófilo que faz tratamento moral de forma sutil e visceral, com seu higienismo microfascista, com seu pão e circo transbordando salmonela e lágrimas, com esse terrorismo publicitário heteronormatizador padrão eurocêntrico que se espalha em todos os espelhos do mundo. Resquícios de sociedade disciplinar que tutela nossas anarkaexistências, que verticaliza nossas marginalidades e que patologiza nosso maravilhoso impeto revolucionário. Spinozeamos o cotidiano, desinstitucionalizamos nossas indignações, metaformoseamos nossos abolicionismos, desautorizamos nossos privilégios. Mas sem culpa que é palavra cristã. Mulheres, com ou sem útero: suportem quando o signo, o significante e significado não lhes forem palpáveis (mas há que se sonhar de olhos abertos). Que se afoguem nos seus conformismos solitários os burocratas de Estado. E que levem junto os médicos castradores de kaos com suas pseudo-neutralidades normatizadoras. Eu é que não vou adaptar o desadaptado! Meu corpo é dócil como um limão! Eu não quero saber de nada que não seja confusão. Eu quero a klínica krítica da ebulição, aprender e ensinar recíproca e micropoliticamente em processos fluídos de muito afeto-desconstrução. Lemiskiando nossas utopias, insurgindo a somaterapia popular da vida. Dispositivo ebulidor de subversão e desejo. Doloroso desdobrar-se sem deixar rastros. Amor que não é livre não é amor. Descontrole copyleft foucaultiano. Minha sexualidade é um vulcão antitotalizante de difícil manuseio, principalmente quando entra em erupção. Subverdades ressonantes do sistema carcerário que pune as vítimas seletivamente conforme seu estrato maquínico, seu status falocêntrico corporativista e seu poder de compra. Metodologia desejante coerentemente contraditória: vou kortar sua pika! Nise da Silveira que nos salve! Carcará pré reflexivo que antes mesmo dos black blocs já botava os puliça pra correr na pedagogia da seringa. Sobriedade incorpórea transmaterial não tem êxodo rural mas tem muito sabor de autonomia zapatista de combate: submissão é a morte! Nossa práxis é de pouca imanência, muito estrago e fácil transmutação: NO PASSARÁN! Nosso terrorismo é pura ação de indagação sistêmica contra o CIStema. Perder-se na osmose atemporal dos psicotrópicos tipo capim-loucura, mas nunca esquecer dos mora-dores de rua. A desumanidade tem cor, gênero, classe social, legislação, cadeira no senado e aparato militar. Identidade nacional? Colonizado que coloniza os seus pares, referencia e recebe bem o colonizador ambicionando um dia também tornar-se um. Mas nós, que nos rebelamos contra essa pátria imprópria, racista, amarga e sanguinária, declaramos guerra contra a ordem, a ordem que tenta domesticar nossos corpos vibráteis e catequizar nossas vontades, nós declaramos guerra contra o progresso, o progresso que invade nossas malocas, imperializa nossa antropofagia e faz dela monstruosos estabelecimentos comerciais. Nossos corpos quentes foram feitos para aquecer uns aos outros, não para dar lucro. Mais que existir é preciso resistir! Antonio Conselheiro e Tupac Amaru deram a letra: onde a injustiça for inflamável há que se ser piromaníacx! O sangue que corre nas minhas inquisições jorra nessa afecção niilista e vez em quando entra em colapso pulsante tornando-se uma guerra civil intracorporal. Certo dia conheci uma senhora de 84 anos que me contou da sua vida, dos seus planos e da sua crimidéia explosiva: aglutinar máquinas desejantes, fazê-los incitar a rebelião e construir barricadas para garantir o recuo daqueles que querem capturar nossos investimentos libidinais libertários. “Nem esquerda, nem direita, viva a hipomania!”, disse ela, contando que recebeu o diagnostico de Transtorno de Humor Popular. Nada nunca, em hipótese alguma, deve ser universalizado. Toda generalização, sem exceção, é um equívoco. Bomba atômica coprolálica, agenciamento suicida de acumulo de capital, método coercitivo de controle dos discursos sancionados por quem esqueceu de contar o número das mulheres que foram mortas vítimas do abordo ILEGAL. Dismorfia paranóide que não deixa nenhum pseudônimo escapar: aburguesamento vitalício! Substâncias psicoativas que nos jogos de verdade ganham vida e viram alvo de guerra. Ignorância compulsória! Hipocrisia polivalente contemporânea que faz ter um senhor feudal em cada sarjeta. Mas ainda há tempo: a gestalt da transmutação subversiva ainda está em aberto. O dia está próximo! O dia em que todxs xs divergentes do mundo e suas múltiplas logorreias transgressoras irão se unir de forma não massificada contra essa ditadura de mercado e essa sutil dominação tirana vigente sob forma de um rizoma interminável de potência revolucionária. Mas enquanto esse dia não chega, ao contrário do que fazem os marxistas masturbadores de intelecto, não ficamos só nos livros, sabotamos qualquer mínimo indicio de poder castrador, nos deliciamos na resistência micropolítica que subverte o biopoder, resingularizamos nossas autonomias autopoéticas criadoras, decaptamos relações de submissão e transformamos nossas magnificas e sensuais experiências transgressoras na indecência modesta de um novo paradigma ético, estético e político, ou seja, artístico: a esquizoanálise da subversão.

Ciça Richter

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Porque usamos máscaras?

Diante da absurda lei que proíbe a máscara nos protestos acho importante nos questionarmos sobre porque a máscara incomoda tanto. E porque os policiais que não usam identificação não geram o mesmo incômodo. Um dos motivos pelos quais usamos máscaras é justamente porque incomoda e nós queremos mesmo é incomodar, ou melhor, desacomodar. Vivemos na sociedade do controle, onde nos dizem o tempo todo como devemos nos portar, o que devemos vestir, o que devemos comprar, o que pensar e até como devemos protestar. Nossos cantos pacíficos de “cara limpa” foram por muito tempo ignorados, por isso hoje nossas vozes saem cheias de ódio por trás de um rosto tapado. E mais que isso: nossos corpos se negam a obedecer, nossos corações repletos de amor e indignação fervem e nossas mãos atiram pedras contra tudo que nos foi violentamente negado: o dinheiro vale mais que a dignidade humana.

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Usamos máscaras também porque isso é uma forma simbólica de mostrar que, como dizem os zapatistas, “esconder o rosto nos faz iguais”. Com a carapuça queremos mostrar que somos mulheres, negrxs, pobres, índixs, homossexuais, palestinxs, sem-terra e todxs xs oprimidxs do mundo que se rebelam. Tapar nossos rostos é uma forma de negar o personalismo e reafirmar que nossa luta é coletiva e horizontal. Não é meu ego que luta, é meu povo. Não estou ali para depois me candidatar a algum cargo político ou obter algum ganho pessoal. A lógica representativa está em crise e agora ação direta é a nossa arma, por isso ao invés de escolhermos um representante que talvez defenda nossas pautas no espaço do parlamento, que talvez ganhe a eleição, que talvez consiga a muito custo colocar um projeto em votação e que se for aprovado será só uma migalha. Não! Nossas urgências não cabem nas urnas e nessa constituição que é feita por e para os ricos. Decidimos fazer com as nossas mãos tudo que nos diz respeito.

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Os trapos que cobrem nossas faces se fazem necessários também porque vivemos um contexto de intensa criminalização das lutas sociais e populares. Engana-se quem acha que vivemos numa democracia e que somos livres para protestar. Nessa sociedade que funciona através da lógica da vigilância e da punição, para cada um que ameaça a ordem há muitos policiais à paisana, câmeras para todos os lados e a mídia prontinha para criminalizar e entregar-nos de mão beijada para as forças repressivas do Estado. Nós somos trabalhadorxs e não queremos nossa cara estampada na capa de um jornal que distorce e vomita tudo mastigado para nossos patrões. Somos sonhadorxs e não temos medo. Mas não somos tolxs, por isso cobrimos nosso rosto, não os nossos olhos. Temos pedras e sonhos na mão e estamos dispostos a lutar contra a ideia da força através da força das nossas ideias. 

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Sabemos que os inimigos da vez são os “anarquistas mascarados” Algum tempo atrás eram os comunistas, hoje são os ditos baderneiros. A mídia bombardeia o povo e o faz de idiota, manipula e forma a opinião do senso-comum dizendo que quem usa máscara não protesta de forma ordeira e é violento. De forma ordeira? Realmente, não protestamos de forma ordeira, pois não somos ovelhinhas bem adestradas, somos as ovelhas negras filhas bastardas da pátria que nos pariu, filhxs que se rebelaram contra essa mãe racista, fascista e segregadora. Violentos? O que fazemos é resistência. A verdadeira violência sempre parte dos vândalos que usam fardas, capacetes, cassetetes, bombas de gás e balas de borracha. E detalhe que as balas de borracha são usadas no centro, na periferia a história é outra. Contra o Estado opressor que prende arbitrariamente, que mata pobre e preto sem pudor, que defende os ricos e a manutenção da ordem a todo custo nós reagimos. E seguiremos resistindo e sonhando, sonhando com os olhos abertos e a cara tapada.

Enfim, poderia dar milhões de explicações e argumentos racionais do porque temos toda a legitimidade para usarmos máscaras, mas a grande verdade é que, com muito ódio e paixão, nós mascaradxs, tapamos nossa cara para mostrar nossos corações.

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Mora-dores de rua

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Subjetividades autopoéticas

São sutilmente amedrontadas

Corpos e espaços

São diariamente moldados

Com um autoritarismo consentido

Autonomias são capturadas

Mas de repente olho pro lado

E vejo que nem tudo pode ser adestrado

Mais que existir, é preciso resistir!

A dignidade humana

Não é uma égua a ser domada

As vidas são obras de arte

E não podem ser comercializadas

A rebeldia que jorra

Violentamente nos nossos corações

Não pode ser e nunca será

Pacificada

 

Cecília Richter

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Lo que me encantó de ti

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Me encanta cuando pides que yo escriba para ti

Entonces yo ire hablar lo que en ti me encantó:

Me encantó tu rebeldia

Me encantó tu sotaque italiano entrelazado con mi portuñol

Me encantó poder amarte de forma libre y loka

Me encantó la agressividad que tienes para luchar contra la opresión

Me encantó cuando deconstruyei los estereotipos de genero y la heteronomatividad

Me encantó tu boca suave hablando palabras poeticas y en guerrillas

Me encantó tu piropo anarkiko adentrando en mi vulva libre

Cecília Richter

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A resistência em forma de ação direta não é nada violenta perto do genocida mais respeitado do mundo: o capitalismo

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Violenta é essa ditadura de mercado.
Violenta é essa realidade, onde têm gente morrendo de fome todos os dias.
Violenta é essa policia que protege quem toma champanhe e bate em quem cata lixo.
Violenta é a tropa de choque e se engana que acha que estão ali para garantir a segurança das pessoas. Eles estão ali para defender a propriedade e para isso usam cassetete, armas de fogo, bombas e o que mais for preciso.
Violenta é essa mídia que distorce, mente e manipula ao ponto de fazer o oprimido defender o opressor.
Violenta é a coerção do estado, que faz com que vidas sejam descartáveis em nome da ordem.
Violenta é a campanha eleitoral que estupra todos nossos sentidos a todo o momento, em todos os lugares, iludindo a todos dizendo que o voto muda alguma coisa.
Violenta é a lógica pacifista, que leva sempre a não-ação e ao não-enfrentamento.
Violenta é a pessoa que é omissa, pois a omissão é uma permissão para que injustiça social siga existindo.
Violenta (e perigosa) é a paz onde há exploração e não há igualdade.

Ciça Richter

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No que eu acredito?

Eu acredito numa prática terapêutica de cunho político-social, que respeite a singularidade de cada sujeito, que combata a lógica desumana da prisão manicomial, que seja contra a patologização indiscriminada das manifestações humanas e a mercantilização da saúde. Um espaço onde a arte possa ser usada como instrumento que possibilite a produção de subjetividades autopoéticas, onde a liberdade, a autonomia e o altruísmo sejam constantemente incentivados. Que se lute de fato pela inclusão social dos usuários de serviços de saúde mental: tratar sem trancar. Que se trabalhe para que cada indivíduo seja o protagonista na construção da sua história de vida e que, principalmente, seja uma prática que respeite e valorize, acima de tudo, a dignidade humana.

Cecília Richter

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Ser humano nesse mundo de animais

Minha sede de mudança é muito maior do que os meus pés são capazes de suportar. E por isso eles hoje estão tão calejados. Nasci para bater de frente com a vida, sentir o mundo na pele, tomar a dor dos oprimidos num só gole e percorrer os dias de uma forma fugaz e urgente. Por isso acho que se eu acreditasse em destino diria que o meu é lutar por liberdade. Sempre fui de nadar contra a maré. Prometi para mim mesma não me deixar levar pela correnteza. Até hoje eu pago caro por essa promessa, porque abri mão do mais fácil, do mais cômodo. Deixei de ser o que queriam que eu fosse para me tornar outra coisa. Alguma outra coisa que eu ainda não sei bem o que é, mas que aprende a cada dia a aceitar os seus defeitos, assumir as suas culpas, não se entregar a passividade, questionar o inquestionável, nunca perder a sensibilidade e aprender a beleza e a dor que é ser humano nesse mundo de animais.

Cecília Richter

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Um recado dadaísta a Marx

Tio Karl:

Eu lia sobre sua teoria e achava que compartilhávamos algumas utopias.

Mas quando eu fui ler sobre a sua vida decepcionei-me.

Decepcionei-me com algumas características suas um tanto quanto tiranas.

Eis que para elaborar essa quebra de idealização, recorro aos anagramas e ao dadaísmo.

TRABALHADOR

TRABALHA A DOR

TANTA DOR

Estou tentando trabalhar a minha dor.

A minha dor, que é a dor do trabalhador.

TRABALHO

TRA(BA)LHO

TRALHO

TRAIO

BA

Eu traio minha ideologia enquanto trabalho?

Pensar para trabalhar ou trabalhar para pensar?

Não quero mais saber de conservadorismo, conformismo, comodismo, consumismo.

– E do comunismo?

TRABALHADOR

RODAHLABART

RODAHLABART

RODA

RODAHLABART

LADO

RODAHLABART

BAR

RODA = MUDA

MUDA + LADO + BAR

Trabalhador: muda de lado e vai para o bar!

E se, um dia, o trabalhador não for trabalhar, ir para o bar e resolver mudar de lado?

Até já imagino os vizinhos tentando explicar:

– Virou vagabundo!

E a sua esposa preocupada tentando entender:

– Ele não quer mais trabalhar, só quer pensar!

E eu o diria:

– Ele tem é que pensar em um jeito de não trabalhar mais sem pensar!

CONSCIÊNCIA DE CLASSE

CONSCIÊNCIA

COM(S)CIÊNCIA

COM CIÊNCIA

CLASSE

CALE-SE

COM CIÊNCIA? SEM CIÊNCIA!

CALE-SE? SEM CALE-SE!

Sem ciência, sem cale-se!

Com humanidade, não obedeço!

Vá para o inferno com a sua ciência!

Vá para o inferno com o seu autoritarismo!

Assinado: uma estudante de psicologia que não se enquadra no estereótipo de psicóloga, comunistaanarquistaexistencialistapós-modernafeministalatino-americanahumanistaalcoólatradistraídadesastradacantora-frustradamaconheirasensívelfoucaultianacancerianabissexualnão-monogamicamíope 3.25freirianaimpulsivasurrealistaagnósticaaflordapelesonhadoraperdidanavida.

Cecília Richter

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Diálogo com um desconhecido na rua sobre o sentir e o saber

Sempre o via na mesma rua, sempre correndo. Então um dia resolvi perguntar:

– Porque tanta pressa?

– Time is Money!

Mas seu corpo denunciava: “não sois máquina”. Falei como se eu fosse a porta-voz da sua dor que veio lhe avisar:

– És humano.

Livros, datas, autores, teorias. Disse a ele, que tanto lê, tanto sabe:

– Que excelente máquina tens acima do pescoço! E o que fazes com isso? E o que fazes com todo o resto de ti? Esbanjando racionalidade! Ignorando o que sentes… mas há algo que te falta saber: há saberes que não são intelectuais.

– É melhor nem pensar nisso!

– E se de repente tu descobrisse que viver é o melhor aprendizado? Os cheiros, as cores, os gostos…

(a dor ensina a gemer)

– E se o que se sente é contrario aquilo que se pensa?

– Experenciar o conhecimento, conhecer a experiência!

– Não temos a vida toda!

– Mas tens toda a vida. E tua vida é tua.

Questionei-o sobre de que adianta saber todos os nomes dos órgãos do corpo humano se ele não se permitia sentir nas vísceras..

– O que te difere de um computador?

Lembrei-me do que aprendi com Paulo Freire: não há aprendizagem significativa sem afeto. Só aprendemos quando algo faz sentido para nós, quando aquilo que aprendemos fizer parte das nossas vivencias.

– As mitocôndrias são as organelas responsáveis pela respiração celular.

– É? E o que tu fazes com isso?

– As mitocôndrias são as organelas responsáveis pela respiração celular.

– Parabéns! Tu vais tirar dez na prova.

(idiota, pensei)

Quando se sabe se fala. Quando se sabe e se sente se mostra.

Tentei então fazê-lo ver sob outro ângulo:

– Nós humanos não somos ensinados a dar voz ao que sentimos! E não há nada que nos ensine mais que sentir na pele!

– Então eu ponho meu cérebro no lixo?

– De maneira alguma! Somos um todo indivisível e inseparável! Saia dessa mania ocidentalizada de ver as coisas de forma antagônica! Seu cérebro e seu coração não são opostos. A razão e a emoção podem coexistir num equilíbrio perfeito!

– Bonitas suas palavras, mas você vive mesmo assim?

“Faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.

Disfarcei o incomodo gerado pela sua pergunta e respondi:

– O caminho do meio entre o saber e o sentir é, para mim, racionalmente óbvio mas experencialmente impossível .

– Então me digas tu: o que fazes com isso?

– Sigo tentando! Sigo tentando mudar as coisas.

E na hora tanta coisa me veio na cabeça…

Aqui dentro:

Ora me vejo só emoção: ingênua!

Ora me vejo só razão: fria!

E lá fora:

Ora amo o mundo sem crítica: tola!

Ora critico o mundo sem amor: agressiva!

Então lhe disse em tom de conformismo:

– Mas viver é isso… encontrar no mistério infinito das coisas uma exatidão inesgotávelmente subjetiva! Ser humano, ter limites!

E encerrei meu discurso, fantasiada de sábia conselheira:

– Não acelere mais tanto o passo e pense no que lhe digo. Não seja tão robô: não esqueça de sentir. Não seja tão bicho: não siga só seus instintos!

– Ok. Vou caminhar mais devagar!

– Mas não pare.

– Sim. E não vou esquecer de olhar pra dentro

– Mas não deixe de olhar pra fora. Veja quanta coisa há de errado ao seu redor

– Mas sabe o que eu realmente quero?

– O que?

– Eu quero querer a mudança por paixão!

(com amor e indignação)

 

Cecília Richter

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Devaneios sobre a Psicologia Familiar

A psicologia parece não querer rever seus arcaicos conceitos sobre constituições familiares. Conceitos esses que seguem velhos moldes de família, com papéis rigidamente estabelecidos e com funções limitadamente determinadas. Baseadas no modelo de família patriarcal, exclusivamente monogâmica e heterossexual, as teorias estão todas prontas: é só tirar da gaveta e aplicar.

É bem mais fácil resistir a outras formas de relações do que rever todas as teorias. É bem mais cômodo isolar comportamentos que saiam do “padrão de normalidade” e classificá-las como patológico do que repensar todos os conceitos. É bem menos trabalhoso se apoiar em modelos familiares de uma teoria feita em 1900 num sofá de veludo de um consultório de Viena do que olhar para o hoje, 2012, Porto Alegre, Brasil, com todas as especificidades da realidade local e todas as mudanças importantes que ocorreram desde então nas esferas sociais, históricas, políticas, religiosas, econômicas e familiares.

É preciso olhar antes para o mundo que nos cerca, nos despirmos de pré-conceitos, desligarmos o botão automático do enquadramento e da patologização indiscriminada, parar e voltar-se para o ser humano que está ali na nossa frente e no contexto pelo qual ele está inserido. E só depois pensar nos conceitos.

Que não esqueçamos, nem por um segundo, que vivemos numa sociedade doente e que os fármacos estão aí para nos fazer não ver isso, que não deixemos de olhar para o âmbito social das relações, que não sejamos reprodutores passivos de velhos dogmas, que nunca deixemos de ver o outro como um ser humano digno de respeito e confiança,  que não sejamos “psicóticos com respaldo científico”: minados de teorias, técnicas e testes, mas sem conexão com a realidade que parece intolerável. Que a mudança nunca, nunca nos pareça intolerável.

Cecília Richter

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Minha utopia, minha poesia

Será que é pedir demais

Querer que as pessoas olhem

Não apenas enxerguem

Essa merda de realidade cruel que nos cerca?

Minha utopia, minha poesia

Noutras vezes só desejaria que alguns vissem um pouco mais.

Mas acho que todos aqueles que querem lutar por liberdade

Deveriam antes libertar a si próprio

Se livrar dessa coisa mesquinha, dessa mania ridícula

De não querer deixar os outros serem

O que eles quiserem

Tem gente por aí que só vê um pedaço do que julga ser universal.

Pensam que pensam que pensam.

A verdade é que somos todos jovens tolos

E ainda levaremos muito tapa na cara

Por isso devemos aprender a mendigar com dignidade

Quebrar toda e qualquer passividade

De discursos majestosos o mundo já está supersaturado

De palavras de luta o dicionário está cheio

Alguém para apontar o dedo, criticar, sinalizar as falhas

Nunca falta

Então façamos o que tiver de ser feito

Seja lá o que isso for

Porque nenhum de nós aqui sabe do que não foi

Breve é o tempo que ainda não veio

Mas viver é isso: aceitar a complexidade das coisas

Mudar os rumos, remover os muros.

Por isso hoje eu só quero saber

Se estão dispostos a largar suas bandeiras e pegar suas armas

Se essa tal juventude está mesmo disposta a não deixar

Nada mais acerca de nós nos cercar

Cecília Richter

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Preto e Branco

Eu gosto do preto e do branco.
Por que essas cores me remetem ao meu passado.
E volto a sentir-me como um pássaro calejado
Que, de tanto voar
Na vertigem de um céu tão cinza
Esqueceu de sentir e amar
O leve gosto da brisa.

Gosto do preto proficiente
Que se desfaz sob o chão
Ao sentir-me inerte.
Oh! Preto tão cheio de nada
Tão obvio quanto o martírio e a fantasia
Da partida e da chegada.

Gosto do branco castigável, de tão frio.
Frieza, desconheço há tempos.
Quem predomina aqui, é um olhar vazio.
Querer e negar
Contradição de um mistério sincrônico
A vida não passa, meu bem
De um simples engano irônico.

Por isso o preto e branco
Sigo a cultivar
O sangue que há anos estanco
Há de um dia, no sopro da melodia
A mim, se curvar.

Na transparência do branco
Ou na obscuriedade do preto
Sei que esquecerei sutilmente
A fúnebre dor de cada momento.

Cecília Richter

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Ônibus lotado.

Ônibus lotado, linha universitária, horário de pico.

Vida de estudante brasileiro que tenta ser um pouco mais

Mesmo sem saber aonde isso tudo irá levar.

Ela, ansiosa.

Na cabeça preocuções mil e substâncias psicoativas.

Ao lado dela sentou um rapaz:

Moreno, alto, ombros largos e

A cara de quem também já não aguentava mais a prisão da rotina que ele mesmo escolheu.

Ela tentava transpor no papel todas as divagações insanas que lhe ocorrera naquele momento.

Impossível.

Ele, com um olhar disfarçadamente sexualizado olhava suas pernas.

Mas seu olhar acabou atraído pela curiosidade de saber o que ela tanto escrevia.

Naquele momento, nele, a pulsão epistemofilica fez-se maior.

Ele inclinava a cabeça pra tentar ler algo.

De uma forma bem sutil.

Quando ela o olhava ele rapidamente fingia que olhava a paisagem na janela.

Ela percebia tudo e sentia-se levemente incomodada.

Não queria que um estranho tivesse acesso a conteúdos tão profundos seus.

Por mais físicamente atraente que fosse.

Há coisas que ela só permitia aos papéis saberem sobre ela.

Mas ele continua tentando pescar nem que fosse algumas palavras.

Nem que fosse só para saber como era a letra dela.

Mas a letra dela mudava muito.

As vezes escrevia com letrinhas miudinhas, bonitinhas, imendadinhas, de menininha prendada.

Outras, escrevia garranchos bizarros, grandes, tortos, de traçado grosso, forte, fora da linha.

Ele aproximava cada vez mais a cabeça

E ela cada vez mais se inclinava para o lado contrário dele.

Quando ela tirava os olhos do caderninho e o olhava, ele desviava o olhar.

Fingia, só faltava assoviar.

Então, subtamente, ela fechou o moleskine e fixou seus olhos nele.

Ele constrangeu-se e mexeu o corpo de forma inquieta

Ela continuou olhando fixo.

Pensou ela que, de que adianta tanta virilidade num corpo se não se tem coragem suficiente para encarar um olhar de uma mulher decidida?

Como se tivesse ouvido o que ela pensava, ele parou e olhou-a nos olhos.

Com um tom agressivamente impositivo, como se o colocasse contra a parede

Ela perguntou:

“Queres mesmo saber o que está escrito aqui?”

Antes que ele ousasse responder, ela abriu o caderno

Folhou aquelas páginas cheias de muita vida, muita vida morta

Localizou o que escrevera.

Se ajeitou no banco, arrumou o cabelo e os óculos, ergueu a postura

Então, com um tom de voz agressivo, teatral, lírico

E com uma espécie de angustia que parecia sinalizar os conflitos dentro dela

Começou a ler:

“VOCÊ JÁ PAROU PRA PENSAR NAS CONSEQUÊNCIAS MIL QUE PODEM TER UM SIMPLES ATO SEU? VOCÊ SABIA QUE TUDO QUE VOCÊ FIZER CAUSA REAÇÕES EM TUDO A SUA VOLTA? MAS PROVAVELMENTE A MAIORIA DELAS VOCÊ NUNCA IRÁ TER CONHECIMENTO. PENSAR SOBRE ISSO TAMBÉM POUCO ADIANTARÁ, POIS A VIDA NADA MAIS É QUE UMA INSANA ROLETA RUSSA, FEITA DE IMPOSSIBILIDADES MIL. DIFICIL, OU DIRIA MELHOR, INALCANÇAVELMENTE PREVISÍVEIS. VIVER É CORRER RISCO, MEU BEM. E O QUE VOCÊ ESCOLHE NÃO FAZER TAMBÉM ACARRETARÁ EM MUITAS OUTRAS ESCOLHAS QUE VOCÊ VAI TER QUE FAZER. UM “NÃO” PREDISPÕE VÁRIOS “SIM”. E CADA VEZ QUE UMA PALAVRA É ESCOLHIDA PRA SER DITA VÁRIAS OUTRAS PALAVRAS DEIXAM DE SER USADAS. TALVEZ MELHORES, TALVEZ NÃO. NUNCA SE SABERÁ. AS VEZES É MAIS FÁCIL SAIR POR AÍ E SÓ IR VIVENDO. OU ACREDITAR QUE UMA FORÇA SUPERIOR ENCAMINHARÁ TUDO NO MUNDO. FOI-SE O DIA EM QUE ISSO ERA DIGERIDO. NÃO É MAIS PORQUE UM DIA SURGIU A DÚVIDA. E PORQUE NEM TODOS ACEITAM AS VERDADES QUE LHE SÃO IMPOSTAS. MAS SABER É PERIGOSO. SABER DESACOMODA. E QUANTO MAIS SE SABE MAIS PERDIDO SE FICA. OLHA EU… EU QUE ME PEGO PENSANDO NA FINITUDE DAS COISAS, NO INTRINSECO E NO UNIVERSAL. E TUDO PARECE, DIANTE DE MIM, PARALELAMENTE SE ENCAMINHAR PARA ALGO ESPLENDOROSAMENTE MISTERIOSO. ESSE MISTÉRIO É LINDO! E EU FAÇO PARTE DELE. TENTAR DESVENDÁ-LO É TÃO UTÓPICO QUANTO APAIXONANTE. E CADA VEZ QUE EU PENSO QUANTO AINDA TENHO PARA DESCOBRIR NO UNIVERSO, VEJO COMO É IMENSA MINHA PEQUENEZ.”

Fechou o moleskine.

Todos em volta daquele ônibus lotado observavam a cena espantados.

Ela olhou para os olhos estagnados daquele familiar desconhecido

E disse num tom irônico:

“Satisfeito?”

Ela então levantou-se, com a cabeça erguida, e rapidamente desceu do ônibus.

Cecília Richter

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Como se trata uma mulher fálica

Trate uma mulher fálica com empenho
A ame de uma forma poética
Beije-a e se mostre envolvente
A conquiste e a deixe sem saída
Acorde ela de um jeito doce
Mostre que você entende sobre existencialismo e fenomenologia.
Coma bem ela.
Abraçe-a e faça com que ela nunca mais se sinta só
Fale sobre o universo, sobre o cosmos, os buracos negros
A faça sentir viva!
Lhe deixe só na vontade alguma vez.
A descreva de forma lírica
Sinta, beba, cheire, engula ela
Deixe-a em dúvida
Elogie ela sempre
Diga sua opinião sobre o conflito arabe-israelense
Instigue, surpreenda
Faça ela saber de verdade o que é o amor livre
Mostre que você é capaz de fazer ela não querer mais ninguém
Leve-a para conhecer toda a América Latina de moto
A apoie sempre e a ajude a crescer
Mostre aceitação incondicional e confie na sua tendência atualizante
Faça ela ter esperança, acreditar na mudança
A faça gozar, arrancar os cabelos, mudar todos os planos
Peça para ela ficar, faça ela querer ficar.
Diga a ela coisas lindas, a deixe sem ar
Prove que Freud estava errado
Trate-a como uma rainha
A deixe esperando algumas vezes
Xingue-a e sinta raiva dela
Mas nunca, nunca mesmo
A trate como uma mulher submissa
Porque se você fizer isso
Ela provavelmente deixará toda compostura de lado
E quebrará a sua cara!
Então nem seu pau enorme terá mais utilidade

Cecília Richter

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Nossos sonhos estão sendo marginalizados.

 

Quando o coletivo sobrepõe-se ao individual

Por raiva, não por imposição

Se amando, não massificando

É quando a gente sente que faz parte de um todo bem maior

Muito maior que o limitado espaço físico que nossos corpos ocupam.

O que nos mobiliza é essa vontade borbulhante de poder cantar.

Cantar os nossos sonhos, abrir os nossos braços, poder sorrir sem medo.

Dignidade humana é poder

Poder ser ouvido, respeitado, correr o mundo, quebrar os muros.

Muros que também não são só físicos,

São aqueles muros construídos dentro de cada um de nós durante tanto tempo.

Desde que viemos, cada um de nós, a esse mundo bandido

Tantos nos dizem sempre o que fazer, como se adequar

E hoje os bandidos somos nós.

Essa sociedade, que tão cheia de falsos moralismos

Nos engana dizendo que somos livres.

E dizem que devemos aprender a aceitar calados.

As instituições de ensino continuam a nos domar feito éguas.

Mas algo dentro de nós continua vivo, algo que é inadestrável.

Então lutamos juntos

Como um compartilhado sonho infantil de onipotência:

Tudo podemos.

Os perigos que se corre? Pouco importa.

Os corpos vibram querendo tirar aquela venda

Que diáriamente tentam nos botar nos olhos.

Aquele “não” que nos impede de ser quem quisermos

Aquela coisa presa na garganta, que sufoca, que quer sair.

Tudo isso faz com que as esperanças se conectem de uma forma quase mística

E sai assim, feito vômito, em revolucionários discursos de libertação.

O que sou eu e o que não sou eu nisso tudo?

A linha é tênue.

Mas então ficamos unidos em um só:

Esse povo, essa massa que forma a prova concreta que

O futuro está na mão de cada um de nós.

E temos sim a força.

A força e a coragem que só quem tá do lado pobre tem.

Somos visionários, fomos além, pensamos além.

Por isso somos, hoje, olhados como se fossemos marginais.

E que isso nunca morra dentro de nós.

Pois é justamente isso que faz desacomodar

Tudo aquilo que nos impede de sermos maiores.

O mundo parece esperar muito de nós.

Libertemos então, as correntes que só nossos olhos libertários parecem ver.

 

Cecília Richter

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Vazias Noites Vadias

Nas noites vazias, nos botecos sujos e nas bebidas baratas
Ela procura achar seus restos.
Suas noites há tempos não são mais criança
Pois elas perderam a inocência e a magia de serem o que são.
Ela vai nos mesmos lugares, encontra as mesmas pessoas
Mas há sempre um momento da noite
Que ela sente, por um milésimo de segundo interminável,
Que não deveria estar ali
Tudo lhe parece tão vazio e cheio de hipocrisia
Esse é o momento mais perigoso dessas noites profanas.
Nessa ultima noite
Quando percebeu que algo sutilmente dilacerante invadira sua carne
Estava no banheiro e por engano
Seu olhar cruzou-se com o seu outro eu que se refletia no espelho
Assim, acidentalmente, percebeu
Que jogara sua vida descarga abaixo
Ou talvez tenha a deixado em algum beco escuro
Dos quais passou cambaleando e derrubando vodka
Então saiu desbravadamente empurrando a porta
Jogou a garrafa que segurava no chão, arrumou o vestido
E pediu uma bebida mais forte
Ela, inutilmente, tentava ignorar o sofrer do mundo
Numa tentativa de calar aquela dor gritante
Sufocar até não se ter mais notícias daquele velho amargo vazio
E se perdeu mais uma vez, indignamente, na vida boêmia.
No outro dia poucos vestigios daquela embriagada euforia se farão presentes
Dela só restam os copos e os corpos vazios
A dor sempre volta para mostrar
Que não se diluiu no whisky
Então após curada a ressaca
(do corpo, não da alma)
Ela se levanta, se veste, se penteia e se maquia
Se renova de falsas esperanças
E sai para outra noite vazia
A procura de outro veneno para anestesiar a vida.

Cecília Richter

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AS RELAÇÕES

Junto com tudo que poderia ser os outros, estou eu
Incerta, inadequada e indecisa.
Junto com tudo que sou eu esta um pouco de cada um que passou por mim
Sonhos, sorrisos e solidão.

Cecília Richter

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A culpa é da bebida produzida a partir dos grãos torrados do fruto do cafeeiro.

Ah! De que sabor me trás tanta melancolia? De que grão bebo, de uma só vez, todas minhas lástimas?
– Com muito açucar, por favor!
Já me é suficiente o amargo da vida.
– Traga-me um cinzeiro também.
Pois um estrago nunca vêm sozinho.
O aroma que entra nos lábios, de todos os que colaboram com o quadro deplorável da humanidade, soa como rotina.
– E as crianças da África?
O café parece um anestésico para as dores do mundo. Mas claro, anestesia as dores de quem vê a miséria, não de quem a sente.
Pobres escravos assalariados que ainda contemplam o dançar das horas com euforia. Argamassa na mão e olhos no relógio.
Oh! Bendito é aquele que nos promove quinze minutos de paz. O único prazer que o trabalhador ainda têm é a hora do café. Mas rápido porque os investidores querem resultados. O chefe ameaça: “se ficares aí tomando tanto café os japoneses vão desistir de vir pra cá”
– E da gastrite ninguém fala?
Acidente de trabalho, morte do cônjuge, depressão, aumento de gastos, câncer na família, filho preso, casa roubada, insônia, falta de apetite sexual…
– Pare de tomar café e vá trabalhar que tudo se resolve!
No delirante andar do ponteiros não há tempo para derramar lágrimas e tormentos.
Mas será mesmo tudo culpa do café? Se assim for, os trabalhadores que tanto suaram para conceber-nos estes grãos sabem do mal que nos fizeram?
Há quem tanto lute para acabar com narcotráfico mas ninguém vê que a pior das drogas está alí, nas prateleiras de qualquer supermercado, para quem quiser se embriagar dessa substância legal que o mundo aceita.
Maldito liquido traidor! Prometeu-me tranqüilidade e pequenos momentos de prazer. Mas não avisou que em troca levaria minha alma. Devemos todos fazer como na Conferência de Taubaté! Queimar milhões de sacas de café. Mas desta vez a crise é diferente: não é o dinheiro que falta nos bolsos dos homens: é a falta de paz no coração dos mesmos.
– Então o café é o culpado da fome, miséria, desemprego, violência e a guerra?
Bom… na verdade a culpa é do homem que produz o café, do homem que manda no homem que produz o café, da família do homem que produz o café, dos descendentes do homem que produz o café e principalmente do homem que consome o café.
Mas é melhor dizer que a culpa é da bebida produzida a partir dos grãos torrados do fruto do cafeeiro. Porque, até onde eu saiba, grãos não matam ninguém.

Cecília Richter

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Resistir para existir

Marx diz que a população de rua não tem potencial revolucionário. O que eu vejo é um galera que sabota diariamente o capital nas mais diferentes formas. Gente com vida itinerante que ameaça a moral vigente dos mais variados modos. “Somos da rua e nosso bloco é popular! Pra pular!” O povo da rua é gente que desterritorializa o privado de tal forma que dá medo nas veinha rica. Aquelas tipo branquinhacomopoodlezinhoqueusalaquêquevaiamissatododomingosensocomumqueaplaudeapoliciaequeéafavordapazmundial que acham que todo mano da rua é drogado e vagabundo. “Frio? Eles nem sentem mais frio, eles são drogados”, disse uma do Menino Deus. Será que elas acham isso porque imaginam o quanto deve ser difícil dormir na rua? E o frio? “Nada melhor que uma canha pra esquentar”. E a mana que foi estuprada por sete caras ao mesmo tempo? “Tu prefere que eu use crack ou que eu me mate?” E a violência policial? “Vamo fumá um pra dar risada e esquecer”. Lembro duma história que um mano que me contou: chegou uma trans mostrando um roxo no olho dum atrack violento da polícia dizendo “olha a minha maquiagem nova”. Sabe resiliência? A galera da rua dá uma aula sobre isso. “Tão na rua porque querem, o Estado dá lugar pra eles morarem de graça”. Albergues tem um cheiro de cocô e de desumanidade, algo bem parecido com o dos manicômios e das prisões. Lá pessoas são enjauladas não no sentido figurado, a galera nos alberrgues dorme numa sala com uma grade que fica chaveada. Pra pedir alguma coisa pros monitores tem que apertar uma campainha que fica no canto da sala. Aí uma mana passa mal, bate na porta porque não consegue chegar até a campainha e sabe o que o monitor faz? Chama a polícia. Uma trans que tinha sido agredida pega na bunda do enfermeiro. E o que ele faz? Chama a polícia. Não existe manejo. Intervenção sem vínculo não é intervenção, é violência! Maldita  lógicamédicocientíficaquedámuitolucropraindustriafarmacêutica (e o dinheiro do SUS que vai pras Comunidades Terapêuticas?) Colegas trabalhadorxs da assistência e da saúde que querem internar compulsoriamente, tirar da rua, fazer arranjar um emprego, parar de usar droga, tudo isso sem perguntar pra pessoa o que ela quer, vocês tem um ótimo papel na sociedade: um papel higiênico. Discurso moralizantes. Teve aquele prédio na Matriz que fez um abaixo-assinado pra tirar a galera da rua dali. “Mas pra fazer abaixo-assinado pra gente ter casa ninguém faz, né?” A galére universière apoia a população de rua, mas quando rola mano tomando ruim dos porco bem na tua frente não deixa de tomar sua cervejinha. Tem gente que faz okupação libertária nos espaços que já eram ocupados pelos mano da rua. Qual é o perfil do morador de rua? No teu cu. A galera da rua é múltipla e suas vivências não são lineares como as nossas. São os In-visíveis, os que ninguém vê. São tantas histórias, tantas dores… E a questão de gênero? As mana são poucas porque pra elas é mais foda. As rad falam que homem não pode ser ator do feminismo. Levei um mano pra assistir o show da minha banda e ele ficou chocado “Tu vai cortar meu pau?”, mas depois de trocar várias idéias o cara disse que tinha 40 anos, foi educado assim e nunca tinha pensado de outra forma, que diz que o “feminismo” é um mundo que ele nem sabia que existia, que não pode dizer que nunca bateu em mina, mas que da próxima vez ele sabe que não vai bater. A gente troca ideia com os mano e depois vê uma manchete da Zero Hora “drogadito salva menina de estupro”. O homens não podem ser protagonistas da luta contra o machismo , mas são um dos atores sim, assim como xs brancxs não podem ser os protagonistas na luta contra o racismo. A mesma princesinha que “libertou” os escravos inaugurou o Hospital Psiquiátrico São Pedro. Na rua ser usuário é foda, ser mina é foda, ser negrx é foda, ser sexualmente desviante na rua é foda. Eu digo “eu quero o fim do Estado” e a galera grita “quero o direito a ter direitos”. Nada é nosso, tudo é nosso! “Quero ver prender os trafi grandão tipo Aécio. Esses vocês não matam né, covardes!” Abstinência, ter uma casa, um emprego de carteira assinada, uma televisão, ser cidadão de bem que paga impostos e sonha em ter aquele Hylux Ronda Sivic 4 x 4 cabine dupla 9.0 depois sair na rua pra pegar o busão e morrer de medo de ser assaltado e perder o celular. A miséria erradicada não chegou no povo da rua. O da vila também estigmatiza o da rua. E quando tu pretensiosamente acha que tem todas as respostas ,o mano pergunta: “Porque tu decidiu trabalhar com nós?” Putz.. porque mesmo? Não sei, só sinto.. sinto que é porque o povo da rua resiste, de múltiplas formas descentralizadas, coletivas (porque ninguém sabota sozinho). Nesse rizoma globalizado da ditadura de mercado eu fico pensando: será que até o afeto pode ser capturado? Prefiro acreditar que não. E resistir ombro a ombro com o povo da rua com muita arte, apoio mútuo, subversão, horizontalidade, saúde coletiva e política ativa. Nas ruas, nas praças, nos becos… a revolução micropolítica está em todas as partes e em todos os lugares. Talvez não consigamos mesmo atingir todas demandas concretas do Movimento no plano macro, mas sinceramente eu me sentiria péssima se estivesse do lado dos que tão ganhando. Mas a galera de rua ta cada vez se aproximando mais, as redes estão se tecendo cada vez mais, estamos cada vez mais unidos e com cada vez menos paciência pra discursos de autoridades. “A gente tá loco pra botar fogo nessa tal de burocracia”. Aos grandões: cuidado! Seus privilégios podem ser ameaçados sob forma de uma performance teatral cotidiana feita por mora-dores de rua chamada “resistir para poder existir”.

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Desabafo

Maldita lógica de homogenização que segrega e exclui o que é fora do padrão, patologiza os desejos e faz com que as pessoas reprimam umas as outras e a si mesmas o tempo todo. Acho que isso de impedir que o outro possa ser quem ele realmente quer ser tá no cerne de todo sofrimento humano. Ou pelo menos na maioria deles. É tão dificil assim perceber que esse processo perverso de punição e exclusão com aquele que fica a margem que o torna marginal? Falo da sexualidade, das instituições, da doença mental, da criminalização da pobreza.

E eu também tô de saco cheio dessas teorias psicológicas importadas das Zoropa e dos States que pouco ou nada tem a ver com o aqui e agora. Teóricos burocratas grandes masturbadores mentais nas suas salinhas com ar condicionado que acham que o mundo lá fora é uma caixinha de Skinner: parem de querer explicar e patologizar as manifestações humanas, desçam do pedestal e se permitam aprender com as pessoas! Não tem nada mais rico que o aprendizado fruto de uma relação de ser humano para ser humano, na troca horizontal, no olho no olho. Aos psicológos “neutros” falocêntricos que – mesmo sem se dar conta – reproduzem a lógica perversa e massificadora do sistema neoliberal: quero que todas suas onipotências cientificas e suas verdades absolutas explodam. A verdade está na pele suada do povão, nos dedos calejados da criança que trabalha 12 horas por dia na lavoura, no sangue da travesti esfaqueada que jorra pela calçada, nos adoecidos pelo capital que são trancados em hospícios (lugar que enlouquece até o mais são), nos presídios que punem quem também é vítima e nos milhares de microfascismos que diariamente doutrinam e adoecem nossas humanidades.

Quero que essas dores cotidianas gritem nas pixações de todos os muros de todas as grandes megalópoles, que jorrem histericamente nas veias de todo peito que pulsa e se rebela contra a tentativa de adestrar nossa revolta e que todas essas injustiças institucionalizadas (que vemos mas não enxergamos) se tornem pólvora de grandes explosões de libertação de corpos, mentes e vidas. Chega de travestir vontades e necessidades, chega de subjetividades amedrontadas, chega de padrões identitários pré-moldados! Vamos deixar a dignidade rebelde aflorar violentamente por todos os poros e avenidas!

Ciça Richter

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Canto dos Palmares

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Eu canto aos Palmares

Sem inveja de Virgílio, de Homero e de Camões

Porque o meu canto é o grito de uma raça

Em plena luta pela liberdade!

Há batidos fortes

De bombos e atabaques em pleno sol

Há gemidos nas palmeiras

Soprados pelos ventos

Há gritos nas selvas

Invadidas pelos fugitivos

Eu canto aos Palmares

Odiando opressores

De todos os povos

De todas as raças

De mão fechada contra todas as tiranias!

Fecham minha boca

Mas deixam abertos os meus olhos

Maltratam meu corpo

Minha consciência se purifica

Eu fujo das mãos do maldito senhor!

Meu poema libertador

É cantado por todos, até pelo rio.

Meus irmãos que morreram

Muitos filhos deixaram

E todos sabem plantar e manejar arcos

Muitas amadas morreram

Mas muitas ficaram vivas

Dispostas a amar

Seus ventres crescem e nascem novos seres.

O opressor convoca novas forças

Vem de novo ao meu acampamento

Nova luta.

As palmeiras ficam cheias de flechas

Os rios cheios de sangue

Matam meus irmãos

Matam meus amores

Devastam os meus campos

Roubam as nossas reservas

Tudo isto para salvar a civilização e a fé

Nosso sono é tranquilo

Mas o opressor não dorme,

Seu sadismo se multiplica

O escravagismo é o seu sonho

Os inconscientes entram para seu exército

Nossas plantações estão floridas

Nossas crianças brincam à luz da lua

Nossos homens batem tambores

Canções pacíficas

E as mulheres dançam essa música

O opressor se dirige aos nossos campos

Seus soldados cantam marchas de sangue.

O opressor prepara outra investida

Confabula com ricos e senhores

E marcha mais forte

Para o meu acampamento!

Mas eu os faço correr

Ainda sou poeta

Meu poema levanta os meus irmãos.

Minhas amadas se preparam para a luta

Os tambores não são mais pacíficos

Até as palmeiras têm amor à liberdade

Os civilizados têm armas e dinheiro

Mas eu os faço correr

Meu poema é para os meus irmãos mortos.

Minhas amadas cantam comigo

Enquanto os homens vigiam a terra.

O tempo passa

Sem número e calendário

O opressor volta com outros inconscientes

Com armas e dinheiro

Mas eu os faço correr.

Meu poema é simples

Como a própria vida.

Nascem flores nas covas de meus mortos

E as mulheres se enfeitam com elas

E fazem perfume com sua essência.

Meus canaviais ficam bonitos

Meus irmãos fazem mel

Minhas amadas fazem doce

E as crianças lambuzam os seus rostos

E seus vestidos feitos de tecidos de algodão

Tirados dos algodoais que nós plantamos.

Não queremos o ouro porque temos a vida!

E o tempo passa, sem número e calendário…

O opressor quer o corpo liberto

Mente ao mundo

E parte para prender-me novamente

– É preciso salvar a civilização

Diz o sádico opressor

Eu ainda sou poeta e canto nas selvas

A grandeza da civilização

A Liberdade!

Minhas amadas cantam comigo

Meus irmãos batem com as mãos

Acompanhando o ritmo da minha voz

– É preciso salvar a fé

Diz o tratante opressor

Eu ainda sou poeta e canto nas matas

A grandeza da fé  a Liberdade

Minhas amadas cantam comigo

Meus irmãos batem com as mãos

Acompanhando o ritmo da minha voz

Saravá! Saravá!

Repete-se o canto do livramento

Já ninguém segura os meus braços

Agora sou poeta

Meus irmãos vêm comigo

Eu trabalho, eu planto, eu construo

Meus irmãos vêm ter comigo

Minhas amadas me cercam

Sinto o cheiro do seu corpo

E cantos místicos sublimizam meu espírito!

Minhas amadas dançam

Despertando o desejo em meus irmãos

Somos todos libertos, podemos amar!

Entre as palmeiras nascem

Os frutos do amor dos meus irmãos

Nos alimentamos do fruto da terra

Nenhum homem explora outro homem

E agora ouvimos um grito de guerra

Ao longe divisamos as tochas acesas

É a civilização sanguinária que se aproxima.

Mas não mataram meu poema.

Mais forte que todas as forças é a Liberdade

O opressor não pôde fechar minha boca

Nem maltratar meu corpo

Meu poema é cantado através dos séculos

Minha musa esclarece as consciências

Zumbi foi redimido.”

 

 Solano Trindade

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Para os ricos a copa, para os pobres a internação compulsória!

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O Projeto de Lei, de autoria do deputado federal Osmar Terra (PMDB), que prevê a internação compulsória de usuários de crack, é um verdadeiro retrocesso em termos de políticas públicas e de tudo que já foi conquistado com muita luta pela Lei da Reforma Psiquiátrica. Depois de tantos anos pessoas terem sido tratadas como animais em manicômios e depois de tanto progresso com a Lei da Reforma Psiquiátrica no que diz respeito a cuidado e respeito, me parece um tanto quanto medieval um Projeto de Lei que tira totalmente a autonomia dos sujeitos e os põe na mão de um juiz. Vejam tamanho absurdo: uma decisão judicial impõe ao usuário o tratamento. O Estado, de maneira coerciva, decidindo a vida das pessoas? Isso é fascismo! Tratamento digno é aquele que respeita a singularidade e a autonomia do usuário. Trancar não é tratar! O melhor tratamento é aquele que se oferece com carinho, cuidado, liberdade e que respeite e valorize a dignidade humana. Sem falar na ética, pois como podemos falar de ética quando não há consentimento?

Em 2011, na 14ª Conferência Nacional da Saúde, rejeitou-se a proposta internação compulsória, pois as questões em relação ao acesso ao tratamento já estão previstas em lei, na Lei da Reforma Psiquiátrica. Já há uma legislação universal que prevê a internação compulsória para desintoxicação e o apoio para reinserção na família depois. Este novo projeto transforma a internação compulsória em internação forçada, de uma forma moralista e criminalizante. Em vez de cuidar, se pune.

O “Plano Nacional de Combate ao Crack” aprova a internação compulsória de dependentes químicos em clinicas particulares. O Projeto de Lei da internação compulsória dá respaldo jurídico para ver todos os usuários como dependentes (independente da intensidade e da quantidade que usa) e a internação compulsória como única solução. Como não há suporte na saúde pública para “tratar” (leia-se prender) tanta gente, isso dá margem para algo ainda mais apavorante: dinheiro público que deveria ir para saúde pública irá para clínicas particulares. Ou seja: vai ter muita clínica privada ganhando muito dinheiro público que deveria ir para o SUS. A maioria dessas clínicas é de cunho religioso e muitas das chamadas “Comunidades Terapêuticas” tem inúmeras denúncias de desrespeitos a orientações sexuais e religiosas, negligências, maus tratos e violações de direitos humanos.

Na contra-mão dos SUS, ao invés de tentar melhorar as políticas públicas para usuários de drogas que já existem, que funcionam repeitando a dignidade humana e a autonomia dos sujeitos, como os CAPS AD, redução de danos, consultório de rua, visitas domiciliares e até internação hospitalar para casos mais graves, querem retroceder para uma lógica que parecia estar superada: a ideia desumana de que prisão é tratamento. Eu, como trabalhadora da saúde mental e militante da luta antimanicomial, sei que apenas a internação não é garantia de tratamento eficaz, ao contrário: isola, estigmatiza, pune e traumatiza ainda mais o indivíduo. A realidade e muitos dados científicos, nacionais e internacionais, mostram que somente a internação raramente é eficaz no caso de dependência química, pois a pessoa é retirada do meio social, quando o trabalho deveria ser de inclusão social.

A forma generalista e parcial que a mídia tem abordado o tema também tem reforçado no imaginário social de que a internação é a única solução. Fala-se de casos extremos, como o de uma mãe que, já não sabendo mais como lidar com filho, o amarra na cama. Talvez, se a mídia e essa mãe soubessem que já existe uma série de políticas públicas para lidar com situações como essa, que inclusive garante a internação para casos extremos, a campanha poderia ser por ampliação dessas políticas que carecem de recursos e por mais investimentos no SUS. Mas não, uma situação específica é passada em rede nacional como algo que acontece sempre, bem como aparece nos programas como Globo Repórter o catador que passou no vestibular e hoje é advogado. A mídia passa isso e deixa um recado subliminar: “se você não é rico é porque não se esforçou o suficiente, se ele conseguiu você também poderia conseguir, se quisesse.” Na verdade foi um em um milhão que conseguiu, mas a exceção é mostrada como regra e usada para reproduzir um interesse hegemônico. E o interesse hegemônico hoje é que as mães aflitas achem que só a internação salvará seus filhos do mundo do crack.

A guerra contra as drogas é uma estupidez sem tamanho. Contra as drogas? As drogas não fazem nada sozinhas. Na verdade a guerra contra as drogas já serviu como desculpa para invadir muitos países, monopolizar comércios e exterminar populações. A guerra hoje é contra o crack, o crack é o inimigo da vez das elites. Poderia ser o álcool, o tabaco, a maconha, a cocaína. Mas o problema é que as outras drogas os ricos também usam. O crack não é a droga que causa mais danos: o álcool e cigarro matam dez vezes mais que todas as outras drogas juntas, mata mas também dá muito lucro. O porquê da guerra ser contra o crack é claramente visível quando se observa quem são os usuários. A guerra contra o crack hoje serve para exterminar a população pobre e negra da periferia.

Mas o mais gritante nisso tudo é o caráter higienista desse Projeto de Lei. As vésperas da Copa do Mundo, nada mais lógico que tirar dos olhos dos turistas e da FIFA o que eles não querem ver: pobreza. O Projeto de Lei da internação compulsória obriga ao tratamento só de quem está na rua. Assim, o deputado Osmar Terra junta numa lei “a fome com a vontade de comer”: deixa tudo limpinho para a os gringos passarem, prende os pobres e ainda  diz que é tratamento. Criminalização da pobreza, punição, remoções de famílias, repressão policial e elitização das cidades. Para os ricos a copa, para os pobres a internação compulsória!

O Projeto de Lei da internação compulsória, além de ser usado para desviar recursos públicos, ir na contra-mão do SUS, “limpar” as cidades para a Copa, responder a interesses específicos de uma elite, criminalizar a pobreza, por na lata do lixo o respeito e valorização da dignidade humana,  põe no individuo um problema que é social e que é muito, muito maior do que se pode abordar num simples texto. Por isso aquela campanha “crack nem pensar”: é melhor mesmo nem pensar na verdadeira causa do crack, vai que as pessoas comecem a pensar e se deem conta que os verdadeiros motivos pelos quais as pessoas usam crack são a miséria, a desigualdade e a exclusão social?

Cecília Richter

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