A culpa é da bebida produzida a partir dos grãos torrados do fruto do cafeeiro.

Ah! De que sabor me trás tanta melancolia? De que grão bebo, de uma só vez, todas minhas lástimas?
– Com muito açucar, por favor!
Já me é suficiente o amargo da vida.
– Traga-me um cinzeiro também.
Pois um estrago nunca vêm sozinho.
O aroma que entra nos lábios, de todos os que colaboram com o quadro deplorável da humanidade, soa como rotina.
– E as crianças da África?
O café parece um anestésico para as dores do mundo. Mas claro, anestesia as dores de quem vê a miséria, não de quem a sente.
Pobres escravos assalariados que ainda contemplam o dançar das horas com euforia. Argamassa na mão e olhos no relógio.
Oh! Bendito é aquele que nos promove quinze minutos de paz. O único prazer que o trabalhador ainda têm é a hora do café. Mas rápido porque os investidores querem resultados. O chefe ameaça: “se ficares aí tomando tanto café os japoneses vão desistir de vir pra cá”
– E da gastrite ninguém fala?
Acidente de trabalho, morte do cônjuge, depressão, aumento de gastos, câncer na família, filho preso, casa roubada, insônia, falta de apetite sexual…
– Pare de tomar café e vá trabalhar que tudo se resolve!
No delirante andar do ponteiros não há tempo para derramar lágrimas e tormentos.
Mas será mesmo tudo culpa do café? Se assim for, os trabalhadores que tanto suaram para conceber-nos estes grãos sabem do mal que nos fizeram?
Há quem tanto lute para acabar com narcotráfico mas ninguém vê que a pior das drogas está alí, nas prateleiras de qualquer supermercado, para quem quiser se embriagar dessa substância legal que o mundo aceita.
Maldito liquido traidor! Prometeu-me tranqüilidade e pequenos momentos de prazer. Mas não avisou que em troca levaria minha alma. Devemos todos fazer como na Conferência de Taubaté! Queimar milhões de sacas de café. Mas desta vez a crise é diferente: não é o dinheiro que falta nos bolsos dos homens: é a falta de paz no coração dos mesmos.
– Então o café é o culpado da fome, miséria, desemprego, violência e a guerra?
Bom… na verdade a culpa é do homem que produz o café, do homem que manda no homem que produz o café, da família do homem que produz o café, dos descendentes do homem que produz o café e principalmente do homem que consome o café.
Mas é melhor dizer que a culpa é da bebida produzida a partir dos grãos torrados do fruto do cafeeiro. Porque, até onde eu saiba, grãos não matam ninguém.

Cecília Richter

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Sobre Richter

A realidade não me é conveniente.
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