Restos de amor despedaçados ao chão

Aqui estou
Às seis da manhã
Num bar sujo da rodoviária
Tomando um expresso.
Sozinha, muda, cansada
E os vestígios da dor ainda estão em mim
Não é a presença humana dela que me deixa assim
Foi o que ela plantou desumanamente dentro do meu peito
Feridas que ficaram enraizadas que compõem
O que eu posso dizer que é hoje
O meu mundo interior
Então me sinto como alguém que já não sabe mais pra que lado ir
E carrego isso nas costas
E quanto fardos dos meus antepassados
Eu ainda ei de carregar?
Movo meus sonhos com esse meu cansaço de sofrer
Quanta melancolia desvairada de temor e medo
Quantos restos de amor despedaçados ao chão
Quantas migalhas de sonhos pisoteados
Por alguém que pelos seus gestos e olhares
Implora que eu desista de respirar
Pede que eu pare de tentar
Tentar levar a vida dessa forma ofegante
Alguém que sentiu dor ao me fazer viver
Parece querer que eu agora morra de dor
Parece que isso tudo se transforma lentamente em ódio
Bem que Freud me avisou que
O amor e ódio podem coexistir num mesmo psiquismo
Eu vejo o amanhecer em Porto Alegre
Assisto as pessoas e os sonhos acordarem nesse dia
Passos rápidos e um sol forte nascendo por trás de um vento ainda modesto
O relógio me engana dizendo que são 15h da tarde
Queria contar para aquele relógio
Um infame segredo
Um dos meus muitos particulares segredos infames
Então o guarda pede que eu saia dali
Pois não é permitido sentar na escada
Minha roupa pode esconder
Mas meu olhar denuncia minha mendigues
A culpa às vezes me rasga e corroí
É que se um dia a deixei
Foi porque vi que não podia mais carregá-la em meus braços
Eu me sentia sugada pelo seu vazio
E nada mais pude fazer
A não ser retirar-me brutamente
Sei que para ela não há nada pior que o amargo gosto da solidão
Mas o que mais me dói nisso tudo
É saber que sou responsável pela minha própria vida
Então acendo mais um cigarro
E vejo que me torno lentamente igual a ela

Cecília Richter

ilustração: Marcelo Monteiro – o Salvador Dalí do novo século
http://www.flickr.com/photos/marcelomonteiro/

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Sobre Richter

A realidade não me é conveniente.
Esse post foi publicado em arte, de minha autoria, pensamentos. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Restos de amor despedaçados ao chão

  1. João Pedro Wapler disse:

    Oi querida,

    Fico tri feliz que tu acessas com frequência o meu blog.
    Valeu mesmo pela tua leitura atenta e sensível.

    Beijos.

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