DIÁRIO DE UMA VIDA PERDIDA


Estava radiante porque encontrara o que havia perdido
O diário e a vergonha na cara
Numa noite insana de uísque e bossa nova.
Na verdade, só conseguiu recuperar o diário.
Encheu-se de expectativas: rever coisas que haviam ficado fechadas ali
Sentou-se e abriu numa página, de forma aleatória.
Deu de cara com algo que tinha escrito e nem lembrava mais:
“Se por acaso eu perder esse diário e você achar essas palavras, soltas por aí, saiba que elas me ajudam muito a vomitar o que eu sinto. E o que eu sinto agora é que só me resta sentir. E que não há limites para o sentir.”
Havia passado algum tempo que tinha escrito aquilo.
Percebeu, como uma espécie de revelação fatal,
Que se ela queria sentir, então teve o que quis.
Queria se embriagar de uma paixão
Uma que machucasse e mudasse o rumo de tudo que não era pra ser
E numa vazia tarde de segunda foi o que pairou
A outra simplesmente veio.
Linda, doce, teatral.
Chegou e já se instalou rápido no seu interior
Interior que jurou ser de sua propriedade
E ela escolheu deixar as coisas irem acontecendo
Mas quando deu por si a outra já estava a despindo
Tirando seus escudos, a deixando desarmada,
Mendiga e nua para o amor.
Tinha medo de depois não conseguir mais ser a mesma.
Mas sempre acabava se denunciando inteira
Pois nunca foi boa em reprimir emoções.
Pouco tempo depois
Por ironia da vida ou por compulsão a repetição
Quando ela finalmente teve o que tanto rogou
Quando teve um sinal de
possívelpessoaqueseriacapazdefazerseucoraçãosairpelabocadeverdade
Simplesmente recuou.
Lembrou quando a outra lhe disse:
– Quando estou com você me sinto mais perto de mim.
– AMOR? VOCÊ ESTÁ INSINUANDO QUE ME AMA?
– Não era você que queria tanto amar? Então, estou aqui.
Pensou que aquilo foi tudo um grande equívoco.
Ela estava falando sim de amor, mas era de amor próprio.
A outra estava falando de ser dependente
E o que ela mais precisava era se tornar auto-suficiente.
Fechou o livro de repente e agressivamente, como quem dá um basta.
Saiu correndo com os sapatos na mão e com o vestido longo a se arrastar nas escadas.
Foi para o mar e saiu gritando:
“Não era a outra, não era ninguém. Era a vontade desesperada que eu tinha de tentar preencher meu vazio.”
Mas não quis ferir ninguém.
Apenas quis atender as demandas de um coração insaciável.
Parou bruscamente e olhou para o mar
Viu que junto com as ondas ia o mundo que ela tinha deixado de viver.
Aqueles motivos que ela criava para não correr atrás da sua própria vida
Não convenciam mais ninguém.
Mas o problema maior não era esse
O problema verdadeiro se vê agora:
Ela mesma deixou de acreditar que queria de fato lutar contra suas fraquezas.
Algo grande começou a pulsar dentro dela.
Talvez a vida. A vida crua. Naturalmente nua.
Mas o mar estava ali, diante de seus olhos.
Molhou timidamente os pés na água gelada
Mas depois se atirou de cabeça, como de costume.
No mar ela achava que estava indo contra a correnteza
Mas na verdade estava sendo levada pela maré.
Deslumbrante fragilidade.
Tudo ali, mesmo não fazendo parte do limite físico do seu corpo
Fazia de alguma forma, parte dela.
Lembrou que Lispector havia lhe avisado:
“Estas entrando em contato contigo mesma e pra ti isso é mortal”
Profeticamente viu o seu futuro como algo repleto de sentimentos lindos e violentos
Esperando para serem experimentados.
Preparada para sofrer? Nunca foi.
E o mundo também nunca foi um lugar seguro.
Pensou que não havia perdido aquele diário por acaso.

Cecília Richter

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Sobre Richter

A realidade não me é conveniente.
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