Permitir-se

Quando descobri Rogers, me apaixonei: essa visão tão linda dos seres humanos, a confiança no potencial de cada um e o profundo respeito por cada individuo que é único e extremamente complexo. É algo tão extraordinário e, ao mesmo tempo, tão simples… Tive o privilégio de sentir isso na prática, proporcionando esse clima de acolhimento e aceitação incondicional a pessoas que precisavam apenas falar com alguém enquanto o remédio para dormir fazia efeito, ou até mesmo alguém prestes a dar um fim à sua vida. Cara, essa experiência foi tão gratificante e me fez ver como é maravilhoso o poder da empatia.

Ao longo dos anos, uma porrada de teorias psicológicas tentaram explicar por que as pessoas fazem o que fazem. Muitas delas ignoraram a individualidade e igualaram os seres humanos aos ratos, pombos, computadores e sei lá mais o que. Teve um que fez uma incrível teoria – muito bem formulada, admito –, que quebrou diversos paradigmas na sua época, mas que usava o divã porque, segundo ele mesmo, não agüentava ficar muito tempo olhando para a cara da pessoa. Teve outro, amigo deste, que quis explicar a complexidade humana através dos excrementos que saem do nariz. Sim, estou falando sério.

Enfim, embora ache que sempre devemos refletir sobre as teorias, sobre suas reais contribuições na vida de alguém, e não torná-las nunca um dogma, não quero cair naquela mesmice da critica pela critica. Só quero que alguém que pretende ajudar outro alguém se coloque no lugar do outro e pense como gostaria de ser visto: como alguém que sente atração pelo genitor do sexo oposto, mas que isso é um conteúdo recalcado que influencia fortemente suas ações e determina o percurso que sua vida irá tomar, que desistiu de ter relações com a mãe pelo medo da castração, que acha que você nada mais quer que descarregar seus impulsos sexuais reprimidos e que precisa de uma pessoa que julga saber muito mais de você do que você mesmo? Como alguém que, para aumentar a frequência de um comportamento desejável seu, basta associar esse comportamento com algo bom, ou seja, se você sentar, rolar e fingir de morto ganha um ossinho? Ou como alguém que possui uma capacidade inata de buscar a auto-realização, mas que precisa se sentir aceita na sua totalidade e complexidade. Que vai ser tratada com respeito, confiança e permissividade para que você possa se desenvolver e ser você mesma, ser quem você quiser ser.

Quem não gostaria de se sentir livre para fazer suas escolhas, ser aceito independente de como for agir, não se sentir julgado e que sabe que você – e mais ninguém – tem uma maravilhosa capacidade de descobrir a sua solução para os seus próprios problemas? Um dia eu ouvi uma fábula que diz o seguinte: “Um macaco que gostava muito de ajudar os outros, passeava à beira de um rio, quando viu um peixe dentro de água. Como não conhecia aquele animal, achou que ele estava se afogando. Querendo salvá-lo, o macaco tirou o peixe do rio e ficou muito contente quando o viu aos pulos, preso nos seus dedos, achando que aqueles saltos eram sinais de uma grande alegria por ter sido salvo. Pouco depois, quando o peixe parou de se mexer e o macaco percebeu que estava morto, lamentou que não tivesse chegado mais cedo para salvá-lo a tempo” .

Essa fábula me fez refletir sobre o quanto achamos que sabemos o que é melhor para os outros e não nos damos conta que o outro é diferente de nós, que passou por vivências diferentes das nossas e assimilou as coisas do seu modo. Por mais que eu tente me colocar no lugar da pessoa e a compreenda da forma mais sincera possível, só a pessoa sabe as dores que tem. Cabe a nós, ajudá-la a descobrir o seu próprio jeito de lidar com essas dores, criando um ambiente favorável, confiando e acreditando que uma pessoa realmente quer “tornar-se pessoa”.

Desde os tempos de colégio, eu sentia que nasci para lidar com gente! Eu adoro praticamente todas as ciências humanas e sou um desastre na maioria das ciências “desumanas”. A idéia de ver o ser humano com paixão sempre me fascinou, principalmente quando tive contato com linhas de pensamento longe daquele conservadorismo asqueroso, como a pedagogia libertadora de Paulo Freire, que transparece amor e esperança nos seus discursos revolucionários, que vê nas pessoas uma flor que precisa ser cultivada para que possa desabrochar e crescer sem limites. Da mesma forma, quando conheci a história do médico Patch Adams, aquele velhinho de cabelo colorido e bigode bizarro que mostra tanta audácia e doçura ao acreditar que muito mais que evitar a morte, um médico deve valorizar a vida. Agora, quando eu descobri a dádiva da filosofia existencialista e a fenomenologia através de Sartre, aprendi com o tiozinho vesguinho o quanto é preciso mostrar a uma pessoa que ela é responsável por suas escolhas e o destino que dá a suas vivências. Isso faz com que o individuo vire sujeito de seu processo e autor da sua própria história.

Mas eis onde eu queria chegar…

De que me adiantaria ler vários livros, conhecer um monte de teorias, seguir a abordagem centrada na pessoa numa psicoterapia se eu não souber aplicar isso na minha própria vida? Aquela coisa do “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” definitivamente não é o que eu quero pra mim. Também não sei exatamente o que eu quero, mas acredito que para poder aceitar o outro, devo aceitar a mim mesma, com todos meus aspectos: bons e ruins, todos eles numa só pessoa, para que eu possa então encontrar uma forma verdadeira de chegar a mim mesma. Confesso que aplicar tudo isso que eu acredito na minha vida não é fácil, porque parece que volta e meia eu acabo “esquecendo” de me aceitar incondicionalmente e faço criticas muito duras, me cobro e me julgo muito, por vezes me vejo como vitima das situações e não percebo que se as coisas estão como estão é porque de alguma forma eu permiti que assim elas estivessem. E, como diz Sartre, “és metade vitima e metade cúmplice”. Ou seja, saber que eu tenho um papel ativo na minha própria vida me mostra o quanto tenho que fazer por mim mesma e descobrir, no meio de tanta coisa solta, o que eu realmente quero.

O que eu realmente quero? Boa pergunta! Acredito que isso seja um processo, uma construção. Então, por enquanto, eu sei que eu quero ser uma pessoa que se permite: permite-se errar, se permite arriscar, experimentar, desistir, insistir, persistir, ser sensível demais, ser mais fria às vezes, ter alguns comportamentos totalmente altruístas e, outros, achar que o melhor a fazer é só pensar no seu próprio umbigo. Quero ser um indivíduo ajustado socialmente, mas não quero ser igual aos outros. Quero ser diferente, quero poder ser bizarra e expressar as minhas opiniões radicalistas, meu pulso firme e meu coração frágil. O que os outros vão achar disso tudo? Da mesma forma que eu quero ser livre para fazer as minhas escolhas quero que os outros sejam livres para pensar o que quiserem.

Quero experimentar a vida, os gostos, os sabores, os temperos, os cheiros, o tudo, o nada, a mais pura alegria e a mais profunda tristeza. E mais do que isso: encontrar a minha forma de me encontrar. Quero assumir um desafio muito grande: o de viver com liberdade e responsabilidade.

E o mais importante: ser humano.

Cecília Richter

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Sobre Richter

A realidade não me é conveniente.
Esse post foi publicado em de minha autoria, pensamentos. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Permitir-se

  1. Vitor disse:

    demais…
    parabéns..

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