Ônibus lotado.

Ônibus lotado, linha universitária, horário de pico.

Vida de estudante brasileiro que tenta ser um pouco mais

Mesmo sem saber aonde isso tudo irá levar.

Ela, ansiosa.

Na cabeça preocuções mil e substâncias psicoativas.

Ao lado dela sentou um rapaz:

Moreno, alto, ombros largos e

A cara de quem também já não aguentava mais a prisão da rotina que ele mesmo escolheu.

Ela tentava transpor no papel todas as divagações insanas que lhe ocorrera naquele momento.

Impossível.

Ele, com um olhar disfarçadamente sexualizado olhava suas pernas.

Mas seu olhar acabou atraído pela curiosidade de saber o que ela tanto escrevia.

Naquele momento, nele, a pulsão epistemofilica fez-se maior.

Ele inclinava a cabeça pra tentar ler algo.

De uma forma bem sutil.

Quando ela o olhava ele rapidamente fingia que olhava a paisagem na janela.

Ela percebia tudo e sentia-se levemente incomodada.

Não queria que um estranho tivesse acesso a conteúdos tão profundos seus.

Por mais físicamente atraente que fosse.

Há coisas que ela só permitia aos papéis saberem sobre ela.

Mas ele continua tentando pescar nem que fosse algumas palavras.

Nem que fosse só para saber como era a letra dela.

Mas a letra dela mudava muito.

As vezes escrevia com letrinhas miudinhas, bonitinhas, imendadinhas, de menininha prendada.

Outras, escrevia garranchos bizarros, grandes, tortos, de traçado grosso, forte, fora da linha.

Ele aproximava cada vez mais a cabeça

E ela cada vez mais se inclinava para o lado contrário dele.

Quando ela tirava os olhos do caderninho e o olhava, ele desviava o olhar.

Fingia, só faltava assoviar.

Então, subtamente, ela fechou o moleskine e fixou seus olhos nele.

Ele constrangeu-se e mexeu o corpo de forma inquieta

Ela continuou olhando fixo.

Pensou ela que, de que adianta tanta virilidade num corpo se não se tem coragem suficiente para encarar um olhar de uma mulher decidida?

Como se tivesse ouvido o que ela pensava, ele parou e olhou-a nos olhos.

Com um tom agressivamente impositivo, como se o colocasse contra a parede

Ela perguntou:

“Queres mesmo saber o que está escrito aqui?”

Antes que ele ousasse responder, ela abriu o caderno

Folhou aquelas páginas cheias de muita vida, muita vida morta

Localizou o que escrevera.

Se ajeitou no banco, arrumou o cabelo e os óculos, ergueu a postura

Então, com um tom de voz agressivo, teatral, lírico

E com uma espécie de angustia que parecia sinalizar os conflitos dentro dela

Começou a ler:

“VOCÊ JÁ PAROU PRA PENSAR NAS CONSEQUÊNCIAS MIL QUE PODEM TER UM SIMPLES ATO SEU? VOCÊ SABIA QUE TUDO QUE VOCÊ FIZER CAUSA REAÇÕES EM TUDO A SUA VOLTA? MAS PROVAVELMENTE A MAIORIA DELAS VOCÊ NUNCA IRÁ TER CONHECIMENTO. PENSAR SOBRE ISSO TAMBÉM POUCO ADIANTARÁ, POIS A VIDA NADA MAIS É QUE UMA INSANA ROLETA RUSSA, FEITA DE IMPOSSIBILIDADES MIL. DIFICIL, OU DIRIA MELHOR, INALCANÇAVELMENTE PREVISÍVEIS. VIVER É CORRER RISCO, MEU BEM. E O QUE VOCÊ ESCOLHE NÃO FAZER TAMBÉM ACARRETARÁ EM MUITAS OUTRAS ESCOLHAS QUE VOCÊ VAI TER QUE FAZER. UM “NÃO” PREDISPÕE VÁRIOS “SIM”. E CADA VEZ QUE UMA PALAVRA É ESCOLHIDA PRA SER DITA VÁRIAS OUTRAS PALAVRAS DEIXAM DE SER USADAS. TALVEZ MELHORES, TALVEZ NÃO. NUNCA SE SABERÁ. AS VEZES É MAIS FÁCIL SAIR POR AÍ E SÓ IR VIVENDO. OU ACREDITAR QUE UMA FORÇA SUPERIOR ENCAMINHARÁ TUDO NO MUNDO. FOI-SE O DIA EM QUE ISSO ERA DIGERIDO. NÃO É MAIS PORQUE UM DIA SURGIU A DÚVIDA. E PORQUE NEM TODOS ACEITAM AS VERDADES QUE LHE SÃO IMPOSTAS. MAS SABER É PERIGOSO. SABER DESACOMODA. E QUANTO MAIS SE SABE MAIS PERDIDO SE FICA. OLHA EU… EU QUE ME PEGO PENSANDO NA FINITUDE DAS COISAS, NO INTRINSECO E NO UNIVERSAL. E TUDO PARECE, DIANTE DE MIM, PARALELAMENTE SE ENCAMINHAR PARA ALGO ESPLENDOROSAMENTE MISTERIOSO. ESSE MISTÉRIO É LINDO! E EU FAÇO PARTE DELE. TENTAR DESVENDÁ-LO É TÃO UTÓPICO QUANTO APAIXONANTE. E CADA VEZ QUE EU PENSO QUANTO AINDA TENHO PARA DESCOBRIR NO UNIVERSO, VEJO COMO É IMENSA MINHA PEQUENEZ.”

Fechou o moleskine.

Todos em volta daquele ônibus lotado observavam a cena espantados.

Ela olhou para os olhos estagnados daquele familiar desconhecido

E disse num tom irônico:

“Satisfeito?”

Ela então levantou-se, com a cabeça erguida, e rapidamente desceu do ônibus.

Cecília Richter

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Sobre Richter

A realidade não me é conveniente.
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