Diálogo com um desconhecido na rua sobre o sentir e o saber

Sempre o via na mesma rua, sempre correndo. Então um dia resolvi perguntar:

– Porque tanta pressa?

– Time is Money!

Mas seu corpo denunciava: “não sois máquina”. Falei como se eu fosse a porta-voz da sua dor que veio lhe avisar:

– És humano.

Livros, datas, autores, teorias. Disse a ele, que tanto lê, tanto sabe:

– Que excelente máquina tens acima do pescoço! E o que fazes com isso? E o que fazes com todo o resto de ti? Esbanjando racionalidade! Ignorando o que sentes… mas há algo que te falta saber: há saberes que não são intelectuais.

– É melhor nem pensar nisso!

– E se de repente tu descobrisse que viver é o melhor aprendizado? Os cheiros, as cores, os gostos…

(a dor ensina a gemer)

– E se o que se sente é contrario aquilo que se pensa?

– Experenciar o conhecimento, conhecer a experiência!

– Não temos a vida toda!

– Mas tens toda a vida. E tua vida é tua.

Questionei-o sobre de que adianta saber todos os nomes dos órgãos do corpo humano se ele não se permitia sentir nas vísceras..

– O que te difere de um computador?

Lembrei-me do que aprendi com Paulo Freire: não há aprendizagem significativa sem afeto. Só aprendemos quando algo faz sentido para nós, quando aquilo que aprendemos fizer parte das nossas vivencias.

– As mitocôndrias são as organelas responsáveis pela respiração celular.

– É? E o que tu fazes com isso?

– As mitocôndrias são as organelas responsáveis pela respiração celular.

– Parabéns! Tu vais tirar dez na prova.

(idiota, pensei)

Quando se sabe se fala. Quando se sabe e se sente se mostra.

Tentei então fazê-lo ver sob outro ângulo:

– Nós humanos não somos ensinados a dar voz ao que sentimos! E não há nada que nos ensine mais que sentir na pele!

– Então eu ponho meu cérebro no lixo?

– De maneira alguma! Somos um todo indivisível e inseparável! Saia dessa mania ocidentalizada de ver as coisas de forma antagônica! Seu cérebro e seu coração não são opostos. A razão e a emoção podem coexistir num equilíbrio perfeito!

– Bonitas suas palavras, mas você vive mesmo assim?

“Faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.

Disfarcei o incomodo gerado pela sua pergunta e respondi:

– O caminho do meio entre o saber e o sentir é, para mim, racionalmente óbvio mas experencialmente impossível .

– Então me digas tu: o que fazes com isso?

– Sigo tentando! Sigo tentando mudar as coisas.

E na hora tanta coisa me veio na cabeça…

Aqui dentro:

Ora me vejo só emoção: ingênua!

Ora me vejo só razão: fria!

E lá fora:

Ora amo o mundo sem crítica: tola!

Ora critico o mundo sem amor: agressiva!

Então lhe disse em tom de conformismo:

– Mas viver é isso… encontrar no mistério infinito das coisas uma exatidão inesgotávelmente subjetiva! Ser humano, ter limites!

E encerrei meu discurso, fantasiada de sábia conselheira:

– Não acelere mais tanto o passo e pense no que lhe digo. Não seja tão robô: não esqueça de sentir. Não seja tão bicho: não siga só seus instintos!

– Ok. Vou caminhar mais devagar!

– Mas não pare.

– Sim. E não vou esquecer de olhar pra dentro

– Mas não deixe de olhar pra fora. Veja quanta coisa há de errado ao seu redor

– Mas sabe o que eu realmente quero?

– O que?

– Eu quero querer a mudança por paixão!

(com amor e indignação)

 

Cecília Richter

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Sobre Richter

A realidade não me é conveniente.
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Uma resposta para Diálogo com um desconhecido na rua sobre o sentir e o saber

  1. Gostei, boa reflexão, racional e hesitante, como um bom ser humano deve escrever.
    OBS: vou te mandar o link de onde publico meus escritos tbm. bjos

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