Canto dos Palmares

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Eu canto aos Palmares

Sem inveja de Virgílio, de Homero e de Camões

Porque o meu canto é o grito de uma raça

Em plena luta pela liberdade!

Há batidos fortes

De bombos e atabaques em pleno sol

Há gemidos nas palmeiras

Soprados pelos ventos

Há gritos nas selvas

Invadidas pelos fugitivos

Eu canto aos Palmares

Odiando opressores

De todos os povos

De todas as raças

De mão fechada contra todas as tiranias!

Fecham minha boca

Mas deixam abertos os meus olhos

Maltratam meu corpo

Minha consciência se purifica

Eu fujo das mãos do maldito senhor!

Meu poema libertador

É cantado por todos, até pelo rio.

Meus irmãos que morreram

Muitos filhos deixaram

E todos sabem plantar e manejar arcos

Muitas amadas morreram

Mas muitas ficaram vivas

Dispostas a amar

Seus ventres crescem e nascem novos seres.

O opressor convoca novas forças

Vem de novo ao meu acampamento

Nova luta.

As palmeiras ficam cheias de flechas

Os rios cheios de sangue

Matam meus irmãos

Matam meus amores

Devastam os meus campos

Roubam as nossas reservas

Tudo isto para salvar a civilização e a fé

Nosso sono é tranquilo

Mas o opressor não dorme,

Seu sadismo se multiplica

O escravagismo é o seu sonho

Os inconscientes entram para seu exército

Nossas plantações estão floridas

Nossas crianças brincam à luz da lua

Nossos homens batem tambores

Canções pacíficas

E as mulheres dançam essa música

O opressor se dirige aos nossos campos

Seus soldados cantam marchas de sangue.

O opressor prepara outra investida

Confabula com ricos e senhores

E marcha mais forte

Para o meu acampamento!

Mas eu os faço correr

Ainda sou poeta

Meu poema levanta os meus irmãos.

Minhas amadas se preparam para a luta

Os tambores não são mais pacíficos

Até as palmeiras têm amor à liberdade

Os civilizados têm armas e dinheiro

Mas eu os faço correr

Meu poema é para os meus irmãos mortos.

Minhas amadas cantam comigo

Enquanto os homens vigiam a terra.

O tempo passa

Sem número e calendário

O opressor volta com outros inconscientes

Com armas e dinheiro

Mas eu os faço correr.

Meu poema é simples

Como a própria vida.

Nascem flores nas covas de meus mortos

E as mulheres se enfeitam com elas

E fazem perfume com sua essência.

Meus canaviais ficam bonitos

Meus irmãos fazem mel

Minhas amadas fazem doce

E as crianças lambuzam os seus rostos

E seus vestidos feitos de tecidos de algodão

Tirados dos algodoais que nós plantamos.

Não queremos o ouro porque temos a vida!

E o tempo passa, sem número e calendário…

O opressor quer o corpo liberto

Mente ao mundo

E parte para prender-me novamente

– É preciso salvar a civilização

Diz o sádico opressor

Eu ainda sou poeta e canto nas selvas

A grandeza da civilização

A Liberdade!

Minhas amadas cantam comigo

Meus irmãos batem com as mãos

Acompanhando o ritmo da minha voz

– É preciso salvar a fé

Diz o tratante opressor

Eu ainda sou poeta e canto nas matas

A grandeza da fé  a Liberdade

Minhas amadas cantam comigo

Meus irmãos batem com as mãos

Acompanhando o ritmo da minha voz

Saravá! Saravá!

Repete-se o canto do livramento

Já ninguém segura os meus braços

Agora sou poeta

Meus irmãos vêm comigo

Eu trabalho, eu planto, eu construo

Meus irmãos vêm ter comigo

Minhas amadas me cercam

Sinto o cheiro do seu corpo

E cantos místicos sublimizam meu espírito!

Minhas amadas dançam

Despertando o desejo em meus irmãos

Somos todos libertos, podemos amar!

Entre as palmeiras nascem

Os frutos do amor dos meus irmãos

Nos alimentamos do fruto da terra

Nenhum homem explora outro homem

E agora ouvimos um grito de guerra

Ao longe divisamos as tochas acesas

É a civilização sanguinária que se aproxima.

Mas não mataram meu poema.

Mais forte que todas as forças é a Liberdade

O opressor não pôde fechar minha boca

Nem maltratar meu corpo

Meu poema é cantado através dos séculos

Minha musa esclarece as consciências

Zumbi foi redimido.”

 

 Solano Trindade

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Sobre Richter

A realidade não me é conveniente.
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