A paixão que (a)traiu.

Ela criou impossibilidades mil e assim vivia a se justificar.
Mas ela precisava urgentemente – como um alcoolista precisa de sua cachaça – de paixão.
Sentia uma necessidade gritante e inesgotável de amar sem limites
E ela se sentia como quem não pode comer mesmo querendo engolir tudo
E isso a sugava, a corroia e a fazia refém
Algo dentro dela precisava ser exorcizado.
Algo que ela não sabia se gritava, se chorava, se ria, se matava, destroia, fortificava, contaminava ou a mantinha de pé.
Não sabia se isso dentro dela precisava sair ou se queria permanecer ali sem ser incomodado.
Aquilo que sentia tirou do lugar tudo aquilo que ela aprendera a deixar bem guardado, como se não existisse.
E isso, que parece tão obvio, dava a ela a possibilidade de descobrir o segredo que espera e revela, sem notar, que a verdade nunca permanecera só.
E se espantou em como conseguiu não notar e viver até então de forma tão fugaz
O que sobrou foi justamente o que ela não quis.
“E se eu, de repente, desistir do sol?”
Queria ela que a brisa e o mar não a fizessem doer
Então decidiu que não queria mais desvendar seu mistério, queria criar a sua própria verdade.
Ultrapassar as barreiras do sonhar.
“Sonhar expande. Viver limita”
Mas depois viu que o sonho que criou foi oriundo do que perdeu.
E se tudo que ela conseguiu foi exatamente o oposto do que queria?
Ela e seus desgostos cotidianos
Fuga de si, manjada solidão de aprendiz.
Queria esquecer os problemas do dia e recorria ao gim.
Pensou que se tudo que fosse sol fosse sonho, os dias de chuva seriam todos tolos.
A realidade, por mais irreal que possa parecer, é o que restou de sua imensa vontade de viver
E ela seguiu, dia após dia, com seus tormentos frutíferos de melancolia
E a sofreguidão lhe jorrava dos olhos
Confortou-lhe saber que toda vez que algo morre, em algum outro lugar do mundo, algo nasce.
Como se algo, grandioso e sublime estivesse por vir…
Tudo tão solto, tudo tão vago. E é assim que ela gosta de viver
Mas será que ela gosta disse mesmo ou é porque não sabe viver de outra forma?
Foi quando ela leu em algum livro de algum sebo do Bom Fim:
“A felicidade é proporcional ao risco que se corre”
E sua vida escorria doente, esgoto abaixo
Escarros de sonhos não concretizados
Andando em círculos e com medo de ser livre
E como sentia ódio!
Odiava tudo, odiava tanto que chegava a amar
E sentia tanto, suas emoções afloravam por todos os poros
Mas fingia esquecer tudo calada, esperando o fim chegar
“E a minha vida continua nas minhas mãos”
Assustou-se ao notar.
Das tantas formas de ser ela mesma, uma delas é sendo tudo.
E cada forma de limitar é uma forma de tentar definir o que não tem definição.
Embora tenha tantos sentimentos dentro dela, ela seguia se sentindo vazia.
“A paixão completa, o amor comprime”
E reprime, quem evita os sonhos de viver paixões vadias.
Mas seu coração insistia em bater selvagem e sutilmente.
A vida é incerta demais para não se querer arriscar
O que sente é lindo demais para querer evitar
Trancou a porta e expulsou o que sentia.
Mas aquilo voltou, obstinadamente pela janela
Foi então que ela percebeu
Que a paixão que atraiu.
A paixão que a traiu.

Cecília Richter

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Sobre Richter

A realidade não me é conveniente.
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